quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Herdeira? - 7




É o último trecho de Herdeira? a ser postado. O restante da história está no livro, rsrs. Continuo esperando vocês no estande da Qualis - Pavilhão Azul - F01/G02, com o livro, marcadores e brindes, durante toda a Bienal.
Herdeira? está em pré-venda na Saraiva - link; depois da Bienal, estará disponível no site da Mundo Uno também.

Temos ainda a Surpresa - no dia 9 de setembro, sábado. Tem a ver com o livro 4.





Esta parte é a que se segue à do dia 2.



A cerimônia de posse, os discursos e o jantar pareciam intermináveis. Mahanor e Glaira estavam perfeitos nos disfarces de chato e sonsa, Kate lutava para não ser traída pelo nervosismo e até Lonal precisava se esforçar para manter o personagem. Conforme a recomendação de Glaira, o rapaz ficou longe de Kate, para a satisfação da condessa Cristina.
Sempre elegante e discreta, a mulher olhou Katelin. Sua neta era uma jovem lindíssima, mas rebelde demais. Excepcionalmente, parecia disposta a se comportar como a princesa que era. Seria maravilhoso a recepção terminar sem Kate se envolver em outra situação constrangedora.
Encerrado o jantar, uns resolveram dançar, outros foram se deliciar com licores, chás e cafés, e a maioria, de bebidas em punho, reuniu-se em grupos de interesses comuns.
Era o melhor momento para Katelin aprontar, e a condessa fez sinal à Guarda para redobrar a vigilância. A princesa, no entanto, apenas se esquivou dos conselheiros, juntando-se a algumas garotas de sua idade. As jovens conversavam animadamente, rindo às vezes. A condessa permitiu-se a esperança de uma noite tranquila.
Quinze, vinte minutos, meia hora... A condessa voltou sua atenção para os compromissos diplomáticos na recepção, deixando a Guarda encarregada de vigiar a neta.
Kate percebeu quando a avó se distraiu. Fez um rápido sinal a Mahanor e Glaira que, como sempre, estavam juntos. Mahanor se afastou, deixando a irmã com algumas conselheiras e esposas de conselheiros. Elas continuaram a falar sem olhar a Lady, que nunca respondia coisa com coisa. Em poucos minutos, esqueceram a garota e Glaira se afastou. As mulheres não perceberam.
Kate continuou a rir e brincar com as amigas. Então, chamou-as para um cochicho:
– Meninas, tenho que cair fora. Mantenham-se conversando pra vovó não notar que saí.
– Lonal? – perguntou uma delas, com os olhos cintilando. – Mas ele nem chegou perto de você!
– Se chegasse, a gente perdia a chance. Fui!
Rapidamente, a princesa escapuliu para as amplas sacadas logo atrás. A avó e a Guarda nunca aprendiam. As sacadas rodeavam a maior parte do prédio como um corredor, facilitando qualquer sumiço. Ficava ainda mais fácil quando as pessoas que estavam lá começavam a se voltar para outra coisa... No caso, Glaira.
Katelin fez questão de não olhar. Precisava confiar na amiga.
Voltou ao salão por uma porta perto do setor de serviço, cujas saídas eram decoradas com fartura de arbustos folhudos, estátuas, biombos e cortinas; com isso, os garçons pareciam surgir do ar. Lonal havia emperrado a porta da cozinha para aquele acesso, obrigando os garçons a usarem os outros. Os dois jovens ficaram ocultos pela decoração.
– Do jeito que estavam olhando, Glaira devia ter subido no parapeito da sacada quando passei – resumiu Kate, aflita.
– Vamos logo – disse o rapaz. – Pelo acesso principal?
– Sim. Eu aviso quando.
O amplo pórtico que levava ao hall da ala do Conselho ficava a quarenta metros do lugar onde estavam. Como a maior parte das saídas da cozinha era naquela parede, poderiam passar de uma área decorada para seguinte sem serem percebidos. No entanto, a entrada e saída de garçons era constante, e Lonal, obviamente, não podia bloquear todos os acessos.
Os olhos de Kate se desfocaram, como sempre acontecia quando fechava contato com a Pérola sem a presença física do Artefato. Em silêncio, Lonal segurou-a pelo cotovelo para evitar esbarrões. A Pérola era ótima para avisar quando podiam avançar, mas às vezes se esquecia de mencionar mesas e cadeiras.
A jovem se moveu de repente, e eles passaram para o próximo acesso sem serem vistos. Mal se esconderam atrás de um biombo, quatro garçons saíram. Mais uns instantes e Kate guiou-os para o acesso seguinte, e para o outro, e mais três, até a última etapa, que os levou além do pórtico. Estavam fora do salão principal.
Lonal deu uma rápida espiada para trás. Muita gente convergia para a sacada. O rapaz contraiu o maxilar, mas não podia descuidar de Kate. Estavam em um pequeno espaço atrás de uma estátua que frequentemente os escondia, e a garota continuava com os olhos ausentes, à espera da próxima brecha na vigilância.
Não demorou a acontecer. Novamente, os movimentos da princesa foram súbitos e silenciosos. A dupla cruzou o hall a apenas três metros dos guardas da Armada que olhavam atentamente para o salão, a esta altura cheio de exclamações e conversas alteradas. Ultrapassaram outro pórtico e entraram na antessala do Conselho.
– Sensores de movimento desativados – disse ela, os olhos voltando ao normal. Os sensores costumavam ser desligados durante as recepções; com seis agentes da Armada de guarda, teoricamente ninguém conseguiria entrar sem ser visto. – Ninguém está nos esperando do outro lado.
Katelin ergueu a saia volumosa, pegando duas pequenas e eficientes armas. Lonal colocou luvas tão finas que mal se notavam, foi até a porta que separava a antessala do setor interno e rapidamente digitou uma senha. Sem um som, a fechadura destrancou. Entraram depressa.
– Nove dígitos? – conferiu Kate. Entregou uma arma a ele e ficou com a outra.
– É. Aumentaram dois dígitos faz quatro dias.
Seis corredores partiam da antessala interna; os jovens se dirigiram para o segundo à esquerda. A segurança ali era feita por guardas da Armada, que a mente sensitiva de Kate pressentia de longe, e por dispositivos móveis de vigilância, pequenos drones que sempre escapavam da garota e muitas vezes haviam enganado a Pérola. Depois de alguns sustos, resolveram que era mais seguro confiar em olhos, ouvidos e uma boa pontaria. As armas, criadas por Mahanor, emitiam um pulso eletromagnético que destruía os circuitos internos dos pequenos aparelhos voadores.
Avançaram com rapidez e cuidado. Havia muitos corredores laterais e por várias vezes Kate e Lonal se esconderam neles, esquivando-se dos guardas. Afinal, pararam diante de outra porta que exigia senha. Lonal digitou quinze dígitos. Antes, eram doze.
Kate entrou e varreu o local com olhos, ouvidos e sensibilidade, a arma pronta para disparar. Lonal seguiu-a, fechando silenciosamente a porta.
Estavam num dos setores mais protegidos do complexo: o dos gabinetes dos conselheiros. A antessala era menor, mas muito suntuosa. Havia dourado por toda a parte, numa clara afronta à hierarquia imperial, pois só Relana podia usar o dourado puro. Quadros de artistas famosos coloriam as paredes, mostrando cenas da vida superficiana com fartura de campos a perder de vista, céu azul, nuvens, flores e florestas... Exatamente o que os imperiais não tinham. Aqueles conselheiros eram tão fascinados pela superfície que, se pudessem, já a teriam invadido.
Sem uma palavra e com os passos mais leves do que nunca, Kate e Lonal avançaram. Ali, guardas eram exceção e drones, a regra; o silêncio os ajudava a ouvir o discreto zunido dos aparelhos a grande distância. A possibilidade de encontrar um conselheiro era insignificante. Eles evitavam os gabinetes durante festas ou recepções, para não comprometer a segurança. Considerando-se a quantidade de coisas que escondiam ali, era uma medida prudente.
Antes que os olhos tivessem se acostumado com a penumbra dos corredores, Kate alvejou o primeiro drone. Seu disparo foi certeiro, a arma não emitiu qualquer som ou chispa. Com um salto, Lonal pegou o aparelho no ar. Os jovens se olharam. Era cedo para um primeiro drone. O segundo surgiu menos de meio minuto depois, Kate acertou-o com um tiro espetacular e Lonal aparou-o, evitando ruídos. A garota indicou os ouvidos: estavam mais silenciosos. Lonal assentiu, apontando as paredes e as luminárias com luz suave: os drones criavam discretos reflexos. Ele cuidaria das paredes; ela, do som.
Trabalhando em equipe, abateram mais doze aparelhos. A arma de Lonal era somente uma garantia extra; a pontaria de Kate era impecável. Ela atirava, ele evitava que caíssem.
Finalmente, alcançaram o final do corredor. Os quadros se multiplicavam, belíssimos. O teto transparente simulava estrelas no mar noturno, e plantas pendiam do lado de dentro.
Lonal se encarregou da porta, a última a abrir. Kate manteve o corredor sob vigilância, mas nenhum drone apareceu. O rapaz tocou-a de leve no ombro, no sinal de que podiam entrar. Kate só abaixou a arma quando ele fechou a porta.
Numa bela chispa dourada, a Pérola surgiu. Estavam seguros.
– Foi um recorde de drones – sussurrou Lonal.
– Não gostei nada desse recorde. – A voz de Kate estava igualmente baixa e, a um gesto seu, a Pérola flutuou ao lado de Lonal, servindo de guia até o banheiro. Ele jogou os pequenos drones da privada e deu a descarga, na forma mais simples de se livrarem deles. A água inutilizava os poucos circuitos intactos, e os aparelhos se perdiam entre os dejetos. A Armada se esforçava para decifrar o misterioso desaparecimento de drones há muito tempo, sem sucesso. Tinham esperanças de obter equipamentos capazes de transmitir em tempo real, mas, até o momento, os cientistas imperiais não haviam conseguido vencer a interferência que impedia esse tipo de transmissão. Aliás, havia muitas interferências inexplicáveis na cidade, muito provavelmente causadas pelo material com o qual as cúpulas eram construídas.
Lonal devolveu a arma à Kate, que fez a sua e a dele sumirem sob suas saias. Sem itens comprometedores à vista, Kate e Lonal eram novamente só a dupla que conseguia se meter nos lugares mais improváveis para um bom amasso. Kate colocou luvas tão finas quanto as de Lonal. Mesmo se fossem encontrados ali, não haveria digitais em locais inconvenientes.
– Onde? – sussurrou Kate.
A luz da Pérola levou-os até uma gaveta trancada na mesa do conselheiro.
Complexas fechaduras físicas eram comuns no Império. Lonal tirou a gravata, abriu a camisa, descabelou-se e puxou do bolso um conjunto de estiletes. Ajoelhado diante do móvel, o Lorde de Cenaros, um dos mais talentosos arrombadores do Império, demorou para destravar o segredo. Foi tempo suficiente para Kate desarrumar o vestido, as joias e o cabelo, e borrar o batom a ponto de quase fazê-lo sumir.
– Tranca de última geração modificada – informou o rapaz, abrindo a gaveta. – Trabalho dos melhores especialistas de Nova Atlantis.
Havia somente um pequeno computador ali dentro. Kate o pegou.
– Mais alguma coisa?
– Não. – Ele tateou todo o interior da gaveta. – Confira com a Pérola.
A claridade da Pérola apontou decididamente para o computador.
– Agora é com você, Kate. Eu vigio.
Assim como Lonal era um excelente arrombador físico, Katelin era fantástica com a parte virtual. Poucas senhas resistiam a ela. Por dez minutos, Katelin brigou com a segurança. Nunca precisara de tanto esforço para vencer o computador de um mísero conselheiro.
– Algum problema? – Lonal, por uma fresta da porta, vigiava o corredor deserto.
– Ele usou criptografia de ponta! – reclamou a garota, em surdina.
– Kate, estamos demorando demais.
– Eu sei! Que droga. O que ele está escondendo com tanto cuidado?!
A Pérola fulgurou de uma forma tão diferente que Lonal deixou o corredor de lado para verificar o que estava acontecendo. A garota encarou-o com os olhos arregalados.
– A Pérola me deu a senha!
– Como assim?
– Sei lá, Lonal! Mas ela me deu a senha! – A jovem entrou com os números e letras. – E está correta!
– Então se apresse. Já devem ter tirado Glaira de lá e sua avó logo vai se lembrar de nós.
Havia numerosos arquivos e pastas relacionados às palavras-chave escolhidas por Kate. Ela passava de um para outro tão rápido que, se Lonal estivesse ao seu lado, só veria borrões na tela.
– A iluminação está se intensificando. Alguém entrou na ala, Kate!
Um novo arquivo se abriu diante da princesa. E, apesar da urgência da situação, ela se imobilizou, perplexa.
– Kate, você me ouviu? – exclamou o rapaz, num sussurro.
– Ouvi. Detenha-os.
A voz autoritária fez Lonal se voltar. Kate acoplou uma unidade de memória ao computador.
– O que houve?
– Encontrei o que estávamos procurando. Detenha-os, Lonal. Do jeito que for! Preciso transferir o arquivo completo.
Em flashes velozes, as imagens desfilavam diante dos olhos da horrorizada princesa.
– Kate!
– Cuide deles. Preciso prestar atenção aqui.
– É sua avó, o cara da segurança para abrir as portas e mais a Guarda. Oito velhotes, o capitão Eldar entre eles. Estão na bifurcação do corredor.
– Preciso de mais uns segundos.
– Eles chegam aqui em mais uns segundos. – Lonal abriu alguns botões da camisa e arrepiou os cabelos. Pegou o batom de Kate e se preparou para fazer a decoração necessária. – Sua avó não vai parar, não interessa o chilique que eu encenar no corredor.
– Acerte um soco nela. – Lonal jurou que só podia ter ouvido mal. – Se tiver que quebrar o nariz de vovó pra detê-los, faça isso.
– O que encontrou aí?
– Eles pretendem matar os trabalhadores da Cúpula 76 para desocupá-la.
– O quê?
– Segure-os, nem que precise fazê-los acreditar que estou pelada.
– Entendido. – Lonal ficou completamente técnico. – Relato o progresso deles?
– Sim.
– Passaram pelo primeiro gabinete. Pelo segundo. Pararam no terceiro, o capitão Eldar mandou abrir. O cara da segurança está com dificuldade na fechadura. Tentando ainda... ainda... Abriu. Todo mundo entrou, um dos oficiais ficou vigiando o corredor.
– Avise quando saírem.
Preciosos segundos se passaram. A transferência de dados estava quase completa.
– Saíram. O cara não está conseguindo trancar a porta. Sua avó está impaciente.
– Terminei. – Kate escondeu a unidade de memória no corpete, entre os seios. Apagou os rastros da invasão no computador, desligou-o, colocou-o na gaveta e fechou, tirando as luvas. A Pérola sumiu. Lonal correu até a mesa e, com um movimento dos estiletes, trancou a fechadura e também retirou suas luvas. Kate já tinha se atirado sobre o sofá e Lonal saltou sobre ela logo antes de a porta abrir.

Um comentário:

  1. Hoje fui na Bienal sem nenhuma lista de livros.. Passei no estande da Qualis e me apaixonei pela capa de Herdeira, as atendentes super atenciosas conseguiram me convencer a levar o livro..Já estou na metade da história e estou amando.
    Uma história maravilhosa, sem aqueles clichês, uma mochinha com bastante personalidade, aventura.. uma mistura perfeita.

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