sábado, 9 de setembro de 2017

A SURPRESA

Esta é uma surpresa direcionada para quem já leu Talismãs, porque se relaciona com seu final. Não estou dando as explicações todas; afinal, nem os personagens sabem ainda. Mas creio que será suficiente para matar uma parte da curiosidade de vocês, mesmo desencadeando outra curiosidade maior ainda. Boa leitura!

#maldade  #privilégiodaescritora



HENRY ESTAVA iniciando seu terceiro dia em Merine.
Na noite em que chegara, a conversa havia se estendido até o amanhecer do dia seguinte. Apesar de saber que Peter estaria tremendamente mal humorado, o kreganiano fora procurá-lo.
– Bom dia, Peter.
O rapaz estava na cozinha, olhando pela janela, com um copo de café em uma mão e uma fatia de bolo na outra. Respondeu, ríspido:
– Seu vou ver o que eles querem e depois falo com você é dos bem demorados!
– Bem mais do que eu pretendia. – Henry nem tentou apaziguar Peter. Não adiantava mesmo. – Paul me tirou do Cisne por três dias. A situação é muito mais complicada do que você supõe.
– Complicada! – O jovem repetiu com amargura, ainda de costas para Henry. – Complicado é saber que meus amigos estão em perigo, Merine sabe o que é e não diz!
– Eles não estão, Peter.
A voz do herdeiro veio mansa, macia, cheia de ameaça:
– Não tente me aplicar nenhuma historinha doce, tio. Ou eu vou me tornar muito mal-educado.
– Combinamos que, quando não pudesse responder com a verdade, eu não responderia. Este é o problema que estou enfrentando agora.
– Ah. – A voz veio mais mansa e ameaçadora ainda. – O senhor veio falar comigo para dizer que não vai falar nada. Que tocante.
– Trata-se de Segredos Maiores de Linhagem, Peter. Nos quais me envolvi devido aos seus elos com Loon e Peggy.
Henry conseguiu a atenção do rapaz. Segredos Maiores de Linhagem – informações que só Senhores empossados recebiam. Peter se voltou, a hostilidade dando lugar a intensa preocupação.
– O que herdeiros mortos em série têm a ver com Segredos Maiores?!
– Quando verificou os registros, investigou apenas os herdeiros?
Ele não respondeu, analisando rapidamente os dados armazenados pela fabulosa memória de Moolna. Henry adiantou a resposta:
– Senhores e Patriarcas também morreram nas datas que você listou. Robert disse que os Contos de Merine não enfatizam isso, uma vez que não podem explicar tantas mortes. E, apesar disso, nenhuma Linhagem foi interrompida.
O jovem herdeiro de Merine tornou a demonstrar que seu raciocínio era extremamente rápido:
– Espere aí. Está dizendo que as Linhagens sabem?!
– Sim. São eventos previsíveis e as Linhagens recebem o aviso cinquenta anos antes. Têm tempo de se preparar e garantir sua continuidade. As idades coincidentes não são a causa do evento. São a consequência de as Linhagens se prepararem para ele.
O rapaz ficou em silêncio alguns segundos, avaliando. E, em se tratando de Peter e suas respostas imediatas, isso era muito tempo. Afinal, perguntou:
– Então Merine sabe o que acontece. Qual a possibilidade do evento acontecer fora das previsões?
– Nenhuma.
– Quando deve ser o próximo?
– Em duzentos e quarenta e oito anos.
– E a nossa geração? Que explicação Merine dá para tantos herdeiros com idades semelhantes?
– Coincidência.
Peter aproximou-se em passos medidos, sentou à mesa e, com um gesto, convidou Henry a sentar também.
– Espera que eu aceite essa resposta, tio Henry?
Com um grande suspiro, o kreganiano escolheu o lugar em frente ao rapaz, sentou e encarou-o.
– Merine não pode explicar, Peter. E não é só você quem deve aceitar a resposta. Todos os Senhores de Tarilian precisam aceitar também.
– Qual é o seu papel nisso? Por que chamaram o senhor?
– Como eu tinha conhecimento de uma parte desses Segredos Maiores, Diure e Robert completaram a informação. Querem que eu seja o aval quando Merine disser que não há perigo, mas também não há explicações.
– Aval através de sua certeza ou da palavra dos Senhores de Merine?
– Eles abriram acesso a tudo que eu quiser para a certeza ser minha, não de Merine.
– Penso que não preciso avisar, mas tome cuidado com os tudos do meu pai. Costumam ser muito incompletos.
– Os de Diure não são.
Peter assentiu. A mãe era de confiança.
– Deve ter uma ideia preliminar a respeito dos argumentos de Merine. Quanta certeza tem até agora?
– Muita. Não há ambiguidade nas informações. São fatos, Peter. Coisas que acontecem periodicamente em Tarilian e exigem tanta força das Linhagens que o preço pode ser a vida dos envolvidos. São, como eu disse, eventos previsíveis. Inevitáveis, mas previsíveis.
– Sempre existe uma porta dos fundos em previsões.
Henry avaliou se seria informação excessiva. Não, não seria.
– Trata-se de uma previsão matemática. Não há porta dos fundos.
– Está me dizendo que, matematicamente, Merine previu catástrofes que matam integrantes de Linhagem? Que fez isso diversas vezes? E que, uma vez depois da outra, não pôde evitar a catástrofe?!
– A catástrofe aconteceria se os integrantes de Linhagem não usassem voluntariamente seus poderes e, muitas vezes, entregassem suas vidas. Eles são o dano menor, Peter. Colaboram de boa vontade porque sabem disso.
– Dano menor – repetiu o rapaz, como se precisasse falar para acreditar.
– Há uma situação em que milhões de vidas estão em perigo. Você pode ser o escudo de todas, mas arrisca sua vida ao assumir a função. Pode recusar, mas sabe que, sem o escudo, milhões vão morrer. O que você faz, jovem Herdeiro de Merine?
– Procuro alternativas.
– Há milênios sua Linhagem procura alternativas. É sua vida ou a deles. O que você faz?
– Assumo compromisso cedo, tenho logo um filho e faço o que devo fazer. – Peter fitou o homem com fogo nos olhos verde-dourados. – Tio Henry, isso está errado. Todos nós com idades semelhantes não é, não pode ser coincidência! Quando os herdeiros de seis Linhagens tinham idades parecidas, nenhum sobrevivia. Agora, os herdeiros das sete Linhagens estão alinhados. Não existem coincidências deste tamanho!
– É para averiguar isso que vou passar os próximos dias aqui. Mas, sinceramente, não consigo vislumbrar a possibilidade de uma porta dos fundos nas previsões de Merine.
A postura do jovem se modificou. Henry sabia o que Peter iria dizer.
– Quero verificar as possibilidades, tio Henry. Os amigos são meus. Preciso da minha própria certeza que é coincidência. Sou o próximo Senhor de Merine. Qual é o problema de me contarem agora uma coisa que vou saber de qualquer maneira? Se não podem dizer aos Senhores das Casas, tudo bem. Mas podem dizer a mim!
– Diure e Robert optaram por não dizer, Peter.
– Se me contarem, alguém ou alguma coisa fica em perigo? A Casa, Tarilian, minha família, eu?
– Não.
– Então eu posso saber!
– Os critérios não são meus, Peter.
– Claro. Os critérios são de duas pessoas eternamente entrincheiradas atrás de segredos inúteis! Se estivesse no lugar deles e eu fosse seu filho, o senhor me contava?
Henry suspirou.
– Sempre é muito fácil saber o que os outros deveriam fazer.
– O que significa que o senhor me diria!
– Sim. Se eu estivesse no lugar de Diure e Robert, e se você fosse meu filho, eu contaria. Tem razão, vai ser o Senhor de Merine. E, numa circunstância assim, a Linhagem poderia abrir uma exceção e revelar Segredos Maiores ao seu herdeiro. – Peter, indignado, bateu as mãos espalmadas na mesa, mas Henry prosseguiu antes de o rapaz dizer a primeira palavra. – Isso se chama saber o que os outros devem fazer. Mas meus filhos nem sequer sabem o que é Linhagem. Teo, o próximo Mentor, não sabe que Kreganian existe. Entende o que quero dizer, Peter?
Devagar, o rapaz abrandou a tensão da postura. Afinal, disse:
– Sim senhor. Podemos falar amanhã de novo, quando tiver mais informações?
– Podemos.


2 comentários:

  1. Fácil. Como já foi dito que Merine mexe com gravitação (conforme citado em Talismãs) e a órbita de Tarilian não é natural, os Senhores de Tarilian usam seus poderes para realinhar o planeta que começa a sair de sua órbita artificial.

    P.S. - QUERO O LIVRO QUATROOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!

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  2. Cadê meu comentário? Acertei na mosca, o sistema descartou ou uma serpente marinha comeu?

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