terça-feira, 15 de agosto de 2017

Herdeira?

E olha eu sumida de novo!
Um pedacinho da capa!
E olha eu aparecendo de novo!

Que tal uma degustação de Herdeira? para o aquece?

Começando do começo...



Capítulo 1

Invasora de gabinetes



SÓ OBSERVO!
Ontem, o cais da Cúpula 1 de Nova Atlantis agitou-se consideravelmente com a precipitada partida dos Lordes Lerri de Katalir e Yonen de Novonax. Nossos sempre tão descontraídos Lordes mostravam-se tensos e irritados, negando-se a informar o destino de sua viagem. Embarcaram no Raio de Luz, o mais veloz e luxuoso submóvel das docas imperiais. E acionaram a velocidade máxima assim que ultrapassaram o perímetro de Nova Atlantis!
Curiosos sobre o motivo da pressa dos Lordes? Nós também!
Nossas fontes informam que os Lordes rumam diretamente para o Rio Proibido de Talos que, como todos sabem, é um formidável e assassino conjunto de correntezas submarinas que se esgueira por quilômetros e quilômetros de ravinas, cavernas e abismos. Devido à instabilidade crescente das corredeiras, o festival de Talos foi cancelado este ano. Não há segurança para a realização de prova alguma, por mais radical que seja o esporte e por mais riscos que o participante aceite assumir. Esportes radicais em Talos? Loucura, garantem os especialistas.
NO ENTANTO, há rumores de que um festival está sendo organizado CLANDESTINAMENTE!
Isto nos leva a concluir que:
1. Organização clandestina significa utilizar os pontos mais perigosos do Rio Proibido, uma vez que estes são os únicos livres de vigilância. Afinal, para que vigiar uma corredeira que mata todos que se aproximam dela? Não deveriam ser os pontos perigosos justamente os mais vigiados??? Aguardamos respostas a essas questões!!!
2. Os Lordes Yonen de Novonax e Lerri de Katalir são notórios apreciadores de cassinos e o maior risco que costumam correr é o de perder fortunas em jogos de azar. Com certeza, seriam apenas espectadores em esportes radicais!
3. ENTRETANTO, Lady Yeda de Novonax, irmã de Lorde Yonen, e Lady Kelara de Laranael, protegida de Lorde Lerri, são conhecidas amantes de adrenalina. E ambas não são vistas há dois dias em Nova Atlantis! Seriam elas o motivo da súbita correria? Estarão os Lordes em uma heroica missão de resgate???
Nossos correspondentes em Talos encontram-se atentos! Mantenham-se conectados!


KATELIN SORRIU ao recordar cada palavra da matéria postada há duas horas. O Só Observo! era a maior mídia sensacionalista do Império Atlante, seguida por milhões de curiosos, e ganhava a vida falando dos famosos, o que tornava os jovens Lordes de Atlantis seus alvos favoritos. Eventualmente, os repórteres também se tornavam alvos, mas de revides furiosos. O último e mais notável incidente fora entre o explosivo Lorde Lerri e um repórter que, no cassino, noticiava ao vivo cada vez que o Lorde perdia. Enfurecido com a maré de azar e os risos do repórter, o rapaz mandou o punho com raiva, estraçalhando o microfone, os dentes e o nariz do intrometido. Tudo devidamente filmado, claro. Após aquele episódio, os repórteres continuaram irritantes, mas de uma distância maior.
Enfim, o importante era que todo o Império Atlante estava focado em Lerri e Yonen correndo para Talos para impedir Yeda e Kelara de participarem de um festival clandestino de esportes radicais. Perfeito!
Em Talos, a primeira coisa que fariam seria acabar com o maldito festival clandestino. Se o festival oficial, cercado de medidas de segurança, matava pelo menos dez por ano, imagine quantos morreriam no clandestino! Nesses casos, os repórteres escandalosos do Só Observo! eram muito convenientes. Perseguindo os jovens Lordes, acabavam sendo levados a situações em que seus exageros se tornavam úteis. Naquela vez, por exemplo, certamente falariam sem parar sobre a necessidade de vigiar os pontos mais perigosos do Rio Proibido. Entrevistariam pessoas chorosas que haviam perdido parentes nas corredeiras, inventariam alguns fatos e catástrofes para enfeitar seus relatos, escolheriam imagens chocantes. E serviriam de estopim para uma melhor regulamentação no acesso àquelas corredeiras assassinas. Depois que começassem o barulho, bastaria convencer o Conselho de que aquilo renderia bons dividendos eleitorais; então, talvez, com sorte, conseguiriam aumentar a segurança em torno do Rio de Talos em meio ano. Era um bom prazo. Bem antes do próximo festival serial killer, ao menos.
Lerri e Yonen deveriam também tentar descobrir os motivos de as corredeiras terem enlouquecido nos últimos meses. Não seria fácil, mas talvez os dois rapazes obtivessem algum resultado. Eles eram ótimos.
Quanto a Kelara e Yeda, as Ladies estavam longe de Talos, seu Rio Proibido e seu festival clandestino. A fuga do palacete fora magistral. A pretexto de estudos, as duas tinham se trancado nos aposentos de Kelara. A condessa, desconfiada da súbita dedicação aos livros, fora verificar e descobrira que as encrenqueiras haviam desaparecido de aposentos com janelas na altura do sexto andar. Então Lerri se lembrara do festival do Rio Proibido, desencadeando a correria que levara para Talos a elite dos repórteres do Só Observo!. Na verdade, as duas garotas estavam em Arimar, uma cidade sob cúpulas a apenas quatro horas de Nova Atlantis, a capital do Império Atlante.
Logo após trancar a porta, Yeda e Kelara haviam rapidamente se disfarçado. Dentaduras e sobrancelhas postiças, perucas, lentes de contato e enchimento para bochechas fizeram as Ladies se parecerem com qualquer pessoa, exceto elas mesmas. Em dez minutos, Katelin batera de leve na porta, no sinal combinado; apesar do palacete cheio de gente, guiara-as até a saída sem serem vistas. Yeda e Kelara se misturaram com o constante vai-e-vem dos funcionários da Cúpula 1, passando em seguida para as cúpulas comerciais, das quais partiram para Arimar. Assim, enquanto eram procuradas em Talos, as jovens tinham total tranquilidade para investigar as estações de tratamento de rejeitos de Arimar. Há meses, surgiam denúncias de que as estações estavam despejando grandes quantidades de poluentes no mar. Estranhamente, as denúncias eram sempre arquivadas. E, mais estranhamente ainda, as estações pertenciam a um rico e influente conselheiro. Kelara e Yeda não teriam qualquer dificuldade em reunir as provas necessárias.
Silenciosa, Katelin subiu mais quatro metros na copa da árvore. Roupas manchadas de verde e marrom, cabelos e rosto sob uma touca negra, olhos claros camuflados por óculos de lentes escuras, ela era pouco mais do que uma sombra. Apenas as luvas estavam presas ao cinto. Preferia escalar com as mãos livres. Alcançou um galho fino e longo que se aproximava bastante da janela aberta no segundo andar. Apesar de tudo estar escuro e quieto lá dentro, ela se imobilizou e aguardou.
Abaixo, no jardim, dois guardas fizeram a ronda. A equipe de segurança da mansão alterava os horários a cada vinte e quatro horas, mas informações confiáveis não eram problema para Katelin. A jovem esperou que sumissem no canto da casa para avançar. A cada passo dado com a cautelosa elegância de uma ginasta, o galho oscilava de leve, abaixando conforme se aproximava do objetivo: a janela. A três metros, Katelin saltou. Seus pés pousaram com precisão no peitoril. Doze metros abaixo, o jardim.
– E sem rede de segurança – sussurrou ela, pulando para dentro do gabinete.
Os olhos já estavam acostumados à escuridão, mas, mesmo assim, Katelin se deu alguns instantes, aproveitando para colocar as luvas. Analisou o aposento. Um sofá e duas poltronas de aparência cara. Painéis de madeira, quadros, esculturas abstratas ao lado da porta fechada. Uma grande mesa de trabalho de madeira, cheia de gavetas nas laterais e decerto com muitos compartimentos secretos. Madeira era sempre um indicativo de poder no Império Atlante, assim como os abajures e o lustre de cristal, típicos da superfície. O ambiente era luxuoso, bem adequado a um dos mais antigos membros do Conselho Imperial.
A jovem verificou a porta. Trancada. Aproximou-se em seguida da mesa, ajoelhou-se no tapete macio e se curvou para frente, como uma bola. Colocou a mão em concha perto do peito, fechou os olhos e cochichou:
– Pode vir.
Com um intenso clarão de transporte, a Pérola de Crialelar surgiu na mão de sua proprietária. A luz foi abafada pelo corpo de Katelin.
– Ok, chega de brilhar. Apague o máximo que puder.
O Artefato obedeceu, e logo Katelin podia abrir os olhos sem se ofuscar.


A PÉROLA era um globo de cristal com apenas dez centímetros de diâmetro. A parte externa era transparente, límpida e incolor. O centro era... maravilhoso! Como uma pequena galáxia em mil tons de dourado, guardava nuvens brilhantes que se moviam como fumaça iridescente, relâmpagos de luz cintilante, minúsculas explosões de cor... Katelin podia passar horas olhando o incrível poder que se espreguiçava no interior do Artefato.
Mas não era a beleza que tornava as Pérolas de Crialelar inestimáveis. Era sua habilidade de mostrar o presente, o passado... e vislumbres do futuro.
A Pérola tinha revelado o local onde o festival clandestino aconteceria. Lerri e Yonen não precisariam procurar; antes de saírem de Nova Atlantis, sabiam para onde precisariam ir. Katelin havia levado Kelara e Yeda para fora do palacete graças à Pérola. A própria Katelin estava naquele gabinete porque a Pérola garantira que havia uma importante informação a ser coletada ali.
– Onde? – Levantou-se no aposento repleto de esconderijos em potencial.
O brilho discreto se concentrou em um ponto do cristal e indicou a mesa de trabalho. Katelin torceu a boca. Considerando a quantidade de negociatas, falcatruas e roubos daquele conselheiro, esperava ao menos ter que arrombar um cofre. A mesa era um anticlímax. Mas, enfim...
Analisou a mesa.
O homem era desonesto, mas organizado. As pilhas de pastas se alinhavam em duas fileiras à esquerda; à direita, havia papéis com o timbre do Conselho, envelopes, carimbos e canetas. Katelin se focou nas numerosas gavetas e no espaço escuro sob a mesa, que era totalmente fechada nas laterais e na frente: um autêntico buraco negro, capaz de abrigar grande quantidade de nichos. Com a voz tão baixa que ela mal se ouvia, perguntou:
– Sistema de alarme ou monitoramento?
Não.
– Como assim, sem monitoramento? Eles sempre se protegem atrás de mil esquemas de segurança. Bom, o que quero está nas gavetas ou no buraco?
A Pérola não respondeu.
– Não se faça de difícil. Não posso passar horas procurando.
Total silêncio.
– Ah, é? Pois eu vou sentar no chão e esperar você sair dessa teimosia muda.
Juntando a ação às palavras, Katelin sentou mesmo. O silêncio se estendeu, mas a jovem não moveu um músculo. Tentar achar alguma coisa naquela mesa era o mesmo que procurar a proverbial agulha superficiana no palheiro. Pior, encontrar uma coisa que nem sabia o que era! Ou a Pérola ajudava, ou aquela invasão era trabalho perdido e risco desnecessário.
Com o equivalente a um suspiro mental, o Artefato brilhou suavemente e concentrou a luz no topo. Katelin levantou, aborrecida.
– Já devia ter aprendido quem é a campeã de teimosia aqui, dona Pérola. Ok. Onde?
A Pérola indicou as pilhas de pastas.
– Só pode estar brincando. Qual pilha?
A segunda da fileira interna.
– Quatro pastas. Qual delas?
A de cima.
– Mas que droga de informação importante ele deixaria atirada assim? Alguma armadilha?
Não.
– Estranho. Vamos ver o que tem aqui. Preciso de luz.
Katelin largou a Pérola, que flutuou como um pequeno balão para iluminar a leitura. As folhas impressas estavam soltas; exibiam desenhos, gráficos, estimativas e protocolos. A garota não entendeu. Os documentos se referiam à construção de uma nova cúpula submersa. Numa cidade feita de cúpulas interligadas, era só rotina.
A ordem, no entanto, veio com rara severidade:
Memorize e fotografe.
– Ou seja, tem qualquer coisa aqui que não estou enxergando. – Katelin, meticulosamente, memorizou e fotografou trinta páginas. – O conselheiro sabe o que tem aqui ou está como eu, olhando sem ver?
Ele sabe.
– Está escondendo a falcatrua na cara de todo mundo?
Sim.
– Isso não é nada bom. – Recolocou as folhas na pasta, fechou-a e a repôs na pilha. – Ficou algum sinal da minha visita?
Não.
– Tenho saída livre?
Sim. A próxima ronda será em sete minutos.
Katelin subiu no peitoril da janela, tirou as luvas e, com um salto preciso, dependurou-se no galho. Em poucos minutos alcançou os limites da propriedade sem tocar no chão, passando de uma árvore para outra com a destreza de um gato.
– Alguém por perto?
Não.
Ela saltou para a rua e livrou-se dos óculos e da touca, revelando o rosto belíssimo. Feições delicadas, fantásticos olhos azuis-esverdeados muito claros cintilando na escuridão, lábios cheios e bem desenhados, cabelos louros despencando numa onda até a cintura, alta e graciosa, Katelin era uma jovem deslumbrante. Escondeu os olhos ao recolocar os óculos e prendeu os cabelos num coque desarrumado. A jaqueta reversível deixou de ser uma sóbria roupa de invadir gabinetes para se tornar uma peça cheia de estilo. Vestiu-a sobre a camiseta branca e colocou um colar de contas coloridas.
Enquanto Katelin fazia estas rápidas mudanças, a Pérola flutuou ao seu lado. Ao terminar, a garota a colocou num dos bolsos. Manteve-se atenta aos arredores, mas sua cabeça estava nos dados sobre a nova cúpula.
Sem se esconder, caminhou com naturalidade pelas ruas da Cúpula 5.


2 comentários:

  1. Muito pouco, para avaliar corretamente, precisa, ao menos, do capítulo completo..... Não vale dar lampana!!!

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