segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Herdeira? - II



De acordo com um bando de gente, meio capítulo não vale.
Portanto, segue a história! Esse texto encaixa no final do texto do dia 15.



A CÚPULA 5 fora a quinta a ser construída. Nova Atlantis se estendia por cento e cinquenta e quatro cúpulas, e Katelin às vezes pensava como teria sido viver naqueles primórdios, quando a capital submarina do Império estava sendo criada.
A primeira cúpula havia sido construída há mais de sessenta anos e servira como base para a construção das quatro seguintes, que formavam um triângulo irregular em torno da pioneira. Apesar de suas estruturas independentes, as Cúpulas 2 e 3 ficavam unidas e eram contadas como uma só. A Cúpula 4 era a mais afastada, e a 5 marcava a terceira ponta do triângulo. Essas cinco formavam a parte mais antiga e nobre de Nova Atlantis. Depois, outras dez foram construídas, novamente em posições sem sentido. Algumas ficavam muito próximas umas das outras, a Cúpula 12 quase se dependurava numa fenda e a 15 ficava tão perto da 1 que parecia parte das cinco primeiras. Olhando-se de cima, era como se alguém tivesse reunido quinze meias-esferas e atirado no fundo, e cada uma simplesmente ficara no lugar aonde tinha caído.
Katelin acreditava que não havia aleatoriedade alguma envolvida. O idealizador da cidade submersa fora Josep Reis, um dos maiores gênios do Império. Ele não teria determinado lugares tão exatos se não fosse importante.
Depois de a Cúpula 15 ter sido finalizada, seu criador decidira que quinze era um bom número. As pessoas não concordaram. A vida ali era maravilhosa. Todos queriam mais cúpulas. Muito mais!
– Construam-nas vocês, então.
Ele abrira mão da tecnologia, e as cidades submersas proliferaram pelo Império inteiro.
Nova Atlantis cresceu. Trinta e seis cúpulas novas, formando um caprichoso anel, circularam as pioneiras. Sua construção se manteve fiel às originais; as moradias foram leiloadas e alcançaram valores exorbitantes, o que desencadeou a implantação imediata de mais dois anéis de cúpulas residenciais.
Na época do terceiro anel, os engenheiros se gabavam de suas melhorias, em especial a disposição em anéis concêntricos e o melhor aproveitamento da relação tamanho do habitat/número de moradores.
Katelin suspirou, incomodada. Ali começara a vulnerabilidade de Nova Atlantis. Mais habitantes por metro cúbico, significava, basicamente, mais dinheiro ganho com menos trabalho. No entanto, a ânsia de morar fora da água era tão grande que o Império achou ótimo quando as cúpulas começaram a brotar como cogumelos superficianos.
Surgiram cúpulas com denominações diferentes.
As pioneiras tomaram o nome de ecocúpulas: autossuficientes, com a população firmemente controlada e enormes áreas verdes. Uma ecocúpula podia funcionar como um sistema fechado; tinha vegetação suficiente para sustentar a vida sem a necessidade de qualquer tecnologia. As ecocúpulas formavam o coração de Nova Atlantis e qualquer espaço ali era disputado a preço de ouro.
O terceiro anel inaugurou as ecocúpulas de margem controlada. Ainda autossustentáveis, tinham autonomia menor do que suas antecessoras e podiam sobreviver sem auxílio da tecnologia por algumas semanas. Os imperiais não se preocuparam. Asfixiar num domo de ar submerso? Não. Se houvesse problemas, era só sair para o mar. Na verdade, a tecnologia avançava a passos tão rápidos que nunca foi necessário apelar para medidas de emergência. Todos os problemas eram solucionados antes de perturbarem a rotina.
Antes das cúpulas, os imperiais tinham três formas de viver: a primeira, na água, onde ainda estava a maior parte da população. A segunda, limitada a poucos privilegiados, ao ar livre, nas ilhas que rodeavam o Palácio de Relana. Esse arquipélago era um dos raros pontos emersos do Império Atlante. A terceira forma era dentro do Palácio Imperial de Relana, onde as lendárias comportas mentais garantiam ar e ambiente seco.
Os pensamentos de Katelin desviaram para o Palácio de cristal de seus antepassados.
A Linhagem de Relana governava o Império Atlante desde tempos imemoriais, e sempre vivera em seu magnífico Palácio dourado. Gigantesco e totalmente submerso, dizia a tradição que, dentro dele, havia ar ou água, dependendo da vontade de seus senhores. Nos tempos antigos, milhares de atlantes viviam em Relana; o Palácio era uma verdadeira cidade regida por leis e habilidades mentais. Com o passar do tempo, sua população diminuíra e, há quatro gerações, a própria Linhagem Imperial o abandonara, passando a viver na Ilha de Relana, coração do arquipélago com o mesmo nome. Com a construção de Nova Atlantis, a Linhagem de Relana mudara-se para a Cúpula 1.
O poderoso e temido Jamion de Relana fora o último Imperador a entrar no Palácio Dourado. Agora a fabulosa estrutura de cristal estava silenciosa e lacrada, negando acesso até mesmo à sua Linhagem. Semienterrado na areia, com suas torres espiraladas e domos sobrepostos reluzindo ao menor toque de luz, o Palácio era um contínuo lembrete de que os atlantes haviam perdido contato com os dons especiais de sua raça: as habilidades mentais.
A moça olhou para cima, e sua atenção voltou ao presente, à abóboda transparente que era seu céu. Estava literalmente coberta de tecnologia.
Até o surgimento de Nova Atlantis, o único local adequado para as Ciências Físicas era o Arquipélago de Relana, uma vez que a maior parte dos experimentos não podia ser feita dentro d'água. Com a chegada das cúpulas, as Ciências Físicas alegremente se mudaram para elas e o Império experimentou um inédito desenvolvimento na Ciência convencional, o que colaborou para impulsionar a instalação das cidades submersas. Era um sistema em retroalimentação: quanto mais cúpulas, mais espaço para a Ciência; quanto mais progrediam as Ciências Físicas, maior a facilidade em construir cúpulas.
Surgiram então as ecocúpulas de margem estreita. Praticamente não-sustentáveis, sua atmosfera se mantinha estável graças a recicladoras de ar. As ecocúpulas de margem estreita se tornaram o abrigo de escolas, universidades, laboratórios e cientistas, e também das fábricas e indústrias exigidas pelo crescimento tecnológico.
Afinal, vieram as cúpulas recicladas, com a habitabilidade mantida exclusivamente por recicladoras de ar. Nelas moravam os trabalhadores menos qualificados e a mão-de-obra doméstica das ecocúpulas.
Era, na opinião de Katelin, um verdadeiro e asqueroso sistema de castas. E a última eram os periféricos, atlantes que se amontoavam em torno das cúpulas, esperando ansiosamente uma chance de entrar. Verdadeiras favelas submarinas cercavam cada cidade do Império. Eram águas sem lei, onde a vida era curta e sofrida.
A jovem apertou forte a Pérola. Se pudesse fazer alguma coisa por aqueles periféricos, qualquer coisa...
Estão fazendo um excelente trabalho. O segredo não invalida suas ações.
– Aquela gente morre por motivos que as cúpulas escolheram ignorar – murmurou Katelin, entre os dentes cerrados. – Como fome, drogas, violência. E ninguém se importa!
Vocês se importam.
– Isso acaba com minha paciência! – rosnou a moça. – Eu podia fazer tudo às claras, e queria ver alguém me parar!
Parar, não. Matar, sim. Tanto a você quanto aos seus Lordes. O segredo é a melhor proteção. Basta aguardar o momento correto. Seu tempo há de chegar.
Katelin calou-se, contrariada. Seu tempo já teria chegado, se não fosse a Pérola. Porque, afinal, o Trono do Império Atlante era seu.


KATELIN, A GAROTA LOURA, linda e invasora de gabinetes, era ninguém menos do que Katelin de Relana, a futura Imperatriz dos oceanos.
Nove anos atrás, a comitiva onde estavam seus pais e seus dois irmãos mais velhos fora exterminada por renegados, inimigos milenares dos atlantes. Aos sete anos, ela se tornara a única sobrevivente de Relana.
Com a morte dos pais, Katelin ficara sob a responsabilidade da avó materna, a condessa Cristina. A Linhagem Imperial passava por seu pai, Jolar; a avó, portanto, não fazia parte da Linhagem, mas ninguém discutira seu direito de se encarregar da neta. Não só dela, na verdade. A morte do Imperador, Imperatriz e príncipes fora seguido, em pouco tempo, pelo assassinato dos Lordes de Atlantis, o que deixara seus filhos, quatro meninos e três meninas, órfãos. A condessa Cristina tomara conta de todos.
Depois da morte dos pais, as crianças não protestaram quando a condessa os afastou de tudo. Amontoaram-se, uma ninhada unida pela dor. Uns extravasaram a revolta em brigas, como Lerri. Glaira e o irmão Mahanor preferiram silenciar. Lonal ria e brincava como se nada tivesse acontecido e não houvesse pais a prantear.
Katelin se mantivera longe tanto de brigas quanto de isolamento. Era a princesa. Precisava dar o exemplo porque, em alguns anos, assumiria sua posição de direito: a Imperatriz de Relana.
Sem o Imperador e os Lordes, o Império ficou acéfalo. O Conselho, que apenas assessorava informalmente o Imperador, se auto investiu na regência até a princesa ter idade suficiente para governar. Como não houve questionamentos, tornou-se governo de fato. No início, geriu o Império de maneira adequada. Logo, no entanto, os conselheiros perceberam que não havia ninguém para supervisioná-los. Foi como abrir uma represa de ganância e amoralidade, que cresceu exponencialmente nos anos seguintes. Sem respeitar nada nem ninguém, o Conselho estabeleceu sua própria lei: encher os bolsos, proteger a si, a seus afilhados e amigos.
Aos doze anos, paciência de Katelin com tantos desmandos, roubos e injustiças se esgotou. Era hora de Relana retomar seu lugar, e de a Herdeira se tornar a Imperatriz. Sua primeira tarefa seria faxinar aquele Conselho corrupto.
No entanto, não fizera nada disto. Por causa da Pérola.


                       CONTINUA NO DIA 23

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