quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Herdeira? - 6

Repetindo:


Herdeira? - 7 - no dia 6 de setembro, quarta-feira
Surpresa - no dia 9 de setembro, sábado. Tem a ver com o livro 4.

Quem quiser saber como continua, estarei esperando no estande da Qualis - Pavilhão Azul - F01/G02, com o livro, marcadores e brindes, durante toda a Bienal.
Agora, Herdeira? já está em pré-venda na Saraiva - link
Depois da Bienal, estará disponível no site da Mundo Uno também.

Nos outros dias, se o iPad colaborar, termos postagens do dia a dia da Bienal. Com excelentes notícias, espero!


Esta parte é a que se segue à postagem do dia 30.


O CONSELHO IMPERIAL era formado por quarenta conselheiros, dez de cada um dos quatro setores do Império Atlante. A cada ano, um setor renovava seus representantes. Na última votação, quatro haviam sido reeleitos, seis sairiam do Conselho e outros seis tomariam posse. Dos que seriam empossados, três haviam ocupado o cargo antes. Katelin não gostava de nenhum deles e não tinha grandes expectativas em relação aos que ainda não conhecia.
A Recepção de Posse era uma das festas mais elegantes do Império. A princesa e seus Lordes deveriam ser presenças obrigatórias, mas, por pura rebeldia, haviam faltado a diversos eventos como aquele. Como Kelara, Yeda, Yonen e Lerri estavam fora de Nova Atlantis, a avó de Katelin reforçou a vigilância sobre a neta e os Lordes restantes, determinada a fazê-los comparecer. Nada de sumiços de última hora, como no ano anterior.
Aparentemente furiosa por não ter encontrado uma brecha para fugir, a princesa, devidamente vestida, penteada e maquiada, expulsou a governanta e suas auxiliares de seus aposentos.
– Estou pronta, não preciso de vocês!
– As ordens de sua avó, a condessa, foram...
Kate cortou a governanta com rispidez:
– Tem dez oficiais na minha porta e metade da Armada está cuidando das janelas! Saiam daqui e me deixem em paz!
Muito dignas e empertigadas, elas obedeceram. No instante seguinte, a Pérola de Crialelar surgiu na mão de Katelin. Se ela aparecia, é porque podia aparecer: havia segurança.
– Chame os outros.
A Pérola fez contato com a mente dos Lordes. Eles atenderam depressa, vindo pelas passagens privativas que interligavam os aposentos. A avó de Kate e a segurança pretenderam lacrá-las várias vezes, mas os jovens nunca permitiram.
Glaira e seu irmão Mahanor, os Lordes de Kotnahur, chegaram juntos. Tinham os mesmos olhos verdes e doces, os mesmos cabelos castanhos ondulados, muita semelhança nos traços e no sorriso... Mas a delicadeza de Glaira contrastava com a estatura elevada e o porte robusto do irmão. Bastava olhar para Mahanor para adivinhar sua grande força física, mas o rapaz evitava usá-la. Preferia ser o chato que queria mandar na vida de todo mundo.
Lonal, o Lorde de Cenaros, entrou em seguida por outro acesso. Os cabelos negros, lisos e compridos, estavam presos num rabo comportado para a recepção. Alguns centímetros e vários quilos a menos do que Mahanor, olhos castanhos, sorriso fácil e charme inquestionável, o rapaz era oficialmente o namorador do grupo.
– Meu sincero uau para vocês, garotas! – Com seu sorriso tão característico, Lonal fez uma profunda reverência diante de Kate e Glaira. – Estão fantásticas!
Realmente, elas estavam.
O vestido de Glaira era verde como seus olhos, trespassado no busto, a saia longa bem solta. Um belo bordado com fios de prata e pedrarias enfeitava a lateral direita da saia, e ela usava poucas joias prateadas. Os cabelos estavam arrumados em um penteado primoroso e a maquiagem, apesar de leve, realçava os olhos e a boca.
Os cabelos de Katelin, ao contrário, estavam praticamente soltos, enfeitados pela tiara dourada que identificava a princesa de Relana. O vestido tomara-que-caia lilás ajustava-se com perfeição ao corpo da jovem, abrindo-se numa saia ampla, repleta de detalhes em ouro. Suas joias eram também de ouro, e a maquiagem, mais elaborada do que a de Glaira.
– Adoro seus cabelos soltos assim, minha princesa – provocou Lonal, rindo.
– Ô baleia manca, avisei que você nunca mais ia me deixar com cara de floresta de algas depois de um redemoinho! Nada de penteados cheios de firulas enquanto for o meu par romântico, seu descompensado! Aquilo foi, foi...
Mahanor e Glaira seguraram o riso. Os cabelos-floresta-de-algas-pós-redemoinho haviam sido fotografados e a imagem de uma princesa absurdamente descabelada percorrera o Império. Acontecera há menos de uma semana e o rapaz ainda não fora perdoado.
– Disse pra eu ser convincente – sorriu Lonal.
– Também disse pra ficar longe do meu cabelo, mas essas suas mãos cheias de dedos me transformaram num espantalho!
– E eis uma princesa que se importa mais com os cabelos do que com a honra! – Lonal indicou Kate para Mahanor e Glaira, que ainda tentavam não rir. – Porque eu já tinha arrancado sua blusa, esqueceu?
– A diferença, meu caro Lorde, é que eu sabia que você ia arrancar a blusa e estava com um top, mas não tinha jeito de consertar aquele maldito cabelo! Aliás, não ouse aproximar seus dedos do meu vestido hoje. Não tem como colocar um top por baixo desta coisa e não quero meus peitos dando show por aí, estamos entendidos?
– Imagine. Jamais faria isto!
– Você já fez! – Kate fulminou-o com um olhar assassino.
– Aquilo foi um acidente. Não era pra você ter recuado naquela hora!
– Não era pra você estar segurando minha roupa com tanta força a ponto de ficar com ela na mão!
Mahanor, sorrindo, interferiu:
– Podemos focar nesta noite, por favor? Depois discutem todas as situações inesquecíveis nas quais se meteram. Kate, começamos quanto tempo depois do jantar?
A recepção se iniciava com a posse dos novos conselheiros, evidentemente temperada a discursos. Depois, era a vez do suntuoso jantar, seguido pela confraternização, quando havia música ao vivo, danças entediantes e conchavos políticos.
Ainda fuzilando o bem-humorado Lonal com os olhos, Kate respondeu:
– Trinta, quarenta minutos. É suficiente para ninguém saber onde alguém está. O que você e Glaira vão fazer?
– Vamos usar o entretenimento especial.
As palavras de Glaira foram calmas, mas tiveram o impacto de uma bomba em Kate e Lonal.
– Glaira, não podem! – Lonal se assustou, de repente tenso. – O salão da recepção fica a mais de doze metros de altura. É perigoso demais!
– O salão fica a dezesseis metros de altura – especificou Mahanor, tão calmo quanto a irmã. – Kate, Lonal, sabem perfeitamente que os olhos da condessa não vão sair de vocês a menos que algo grande a distraia. Infelizmente, precisaram encenar amassos com frequência nas últimas semanas. Portanto, para desviar a atenção dela e da Guarda, é necessário agir de forma não convencional.
– A Pérola disse que as informações eram importantes e se comportou de um jeito inédito – acrescentou Glaira. – O que significa que vocês precisam ter sucesso na invasão. Posso conseguir algum tempo, mas não há como prever exatamente quanto.
Kate recuperou a voz, que havia sumido com o choque:
– Está fora de questão, Glaira, você não vai arriscar sua vida assim! Tenha um ataque histérico, um desmaio, dê uma de louca e quebre tudo, faça o que bem entender, menos essa maluquice! Guarde isso pra qualquer lugar a menos de cinco metros do chão!
– Desmaios ou quebradeiras não vão adiantar, mas, com dezesseis metros, vão se concentrar só em mim. É melhor nem olhar para Kate antes de sumirem, Lonal. Quanto mais desprevenida a condessa estiver, mais vai demorar a procurá-los.
– Glaira, estou dizendo que não concordo com isso!
O tom de Kate mudou para comando, exatamente como Glaira previra. Encarando a princesa, a jovem retrucou:
– Pergunte à Pérola.
– O quê?
– Pergunte se tem qualquer outra coisa que dê a vocês o tempo necessário, Kate.
– Mas...
– Pergunte. Parece que levei o comportamento anômalo da Pérola mais a sério do que você.
O Artefato flutuava perto deles, ouvindo a conversa. Katelin olhou-a e não fez a pergunta em voz alta, mas todos viram a chispa que emitiu ao responder.
– Kate, por favor, diga que a Pérola garantiu que é loucura!
A jovem se voltou para Lonal.
– A Pérola respondeu que a ideia de Glaira e Mahanor é a melhor opção, e que devemos aproveitar. Enfatizou que precisamos dos dados hoje.
– Não é possível, são dezesseis metros de altura! – Lonal olhou os amigos. – O que tem de tão importante no computador daquele inútil, afinal?
– Não sei, mas ela nunca concordou com riscos como esses. – A voz de Kate estava firme. Voz de princesa de Relana. – Portanto, vamos fazer do jeito que você quer, Glaira. – Num ímpeto, abraçou a amiga. – Tome muito cuidado! Lonal e eu tentaremos ser rápidos.
Lonal inspirou fundo e encarou os outros. A ala do Conselho era um dos locais mais protegidos de Nova Atlantis. Naquela noite, já estariam dentro do prédio, o que acelerava as coisas. No entanto...
– Não vai ser rápido, Kate. Mesmo sem contratempos, precisaremos ir do acesso principal até o sistema de segurança do computador pessoal dele. Não tem como fazermos isso em menos de uma hora.
– Vamos encontrar um jeito – retrucou Kate, e entregou um batom a Lonal. – Fica com você. É o que estou usando.
Batidas enérgicas interromperam os jovens. Era a condessa, nervosa pelas portas trancadas.
A Pérola desapareceu e todas as expressões mudaram num instante. Quando Kate abriu, Glaira olhava distraidamente um abajur, Lonal parecia mais safado do que nunca e Mahanor passava uma bronca no amigo.
– Puxa, vó, não dá pra dar uma folga, não? – reclamou a princesa, mal-humorada.


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