sábado, 26 de agosto de 2017

Herdeira? - 4



Iniciando o capítulo 2, conforme nosso cronograma.
Esse deve ser lido após o texto do dia 23.





KATELIN ABANDONOU os devaneios ao se aproximar de uma das comportas da Cúpula 5.
A enorme comporta dupla estava com as portas abertas, e Katelin novamente admirou a fantástica obra de Engenharia. Sessenta anos de funcionamento sem apresentar um único problema. O sistema desenvolvido pelo doutor Reis era tão perfeito que ninguém fora capaz de aperfeiçoá-lo.
Passou pela comporta interna, correndo os olhos por cada detalhe do elegante arco que se elevava a vinte e cinco metros de altura. Parecia novo. No início do mês, durante os testes de rotina, aquela comporta tinha se fechado duas vezes mais rápido do que as da Cúpula 154. No entanto, como o tempo de fechamento estava dentro dos padrões de segurança, a anomalia foi ignorada.
Após a comporta interna, a câmara de descompressão se projetava quarenta metros para fora da cúpula. Acompanhava a altura e o design em arco da comporta; sua estrutura era poderosa, feita para suportar uma possível invasão do mar. A jovem suspirou. As novas câmaras de descompressão não tinham metade daquela resistência.
Projetadas como setores de segurança, as áreas de descompressão eram inicialmente limpas, despojadas. Com o passar dos anos, os moradores exigiram modificações. A câmara por onde Katelin passava era luxuosamente decorada, para agradar aos abastados usuários.
– Se a água invadisse isso, voaria coisa pra todo lado – resmungou Katelin para si mesma, seguindo o amplo e sinuoso caminho de pedras. Ao seu lado, desfilavam estátuas, árvores, bancos e flores. – A começar por aquilo!
Aquilo era um dos grandes motivos de fúria da princesa: as esteiras rápidas de transporte, que ocupavam as duas laterais da câmara. No lado direito, as usadas por moradores e seus convidados eram amplas, com belas paredes transparentes; no lado esquerdo, a esteira de serviço ficava oculta atrás de muros cobertos por plantas. Eram divisórias comuns, que seriam arrancadas em um instante se o mar invadisse. Mais coisas para atingir as pessoas numa situação de emergência, na opinião de Katelin. Os imperiais de Nova Atlantis pareciam ter esquecido que moravam em bolhas de ar ancoradas no fundo do mar, o que não era, de forma alguma, um estilo de vida repleto de segurança.
Paralelamente ao paredão que escondia a esteira de serviço, ficava a estreita rua de duas mãos. Para os padrões superficianos, seria um beco apertado. Para os pequenos veículos de Nova Atlantis, era suficiente.
Alcançou a segunda comporta, passou a identidade falsa pela catraca e saiu sem problemas. À sua frente, o túnel de interligação se estendia por centenas de metros, com as esteiras de transporte, a rua, um monotrilho e até uma calçada, para os raros que preferiam ir a pé.
Faltavam ainda dez minutos para o monotrilho quase deserto iniciar o próximo deslocamento; além da princesa, havia apenas alguns empregados cochilando em seus assentos. Katelin escolheu um lugar no fundo, longe de todos. Desembarcou na segunda estação: uma engenhosa mini cúpula no entroncamento de vários túneis. Ali, entrou em outro transporte bem mais cheio e desceu, junto com boa parte do tumulto, em uma movimentada cúpula comercial de Nova Atlantis. Passeou um pouco, olhou vitrines e decidiu que o restaurante mais esnobe era uma boa pedida para a noite. O lugar exigia, no mínimo, traje social, mas não barraria a princesa de Relana, mesmo vestida de arrombadora de gabinetes. A cara do emproadíssimo maitre valeria a noite!
Não. Analisar os dados, imediatamente.
Katelin quase parou, espantada. Logo retomou o ritmo dos passos, sussurrando:
– Pra que tanta pressa? Se eu não arrumar alguma confusão, vovó desconfia. Faço uma desordem rápida e pronto.
Dados urgentes de suma importância.
– São só especificações de uma nova cúpula. – A jovem continuou andando. – Ei, ficou tão quieta, de repente! Não vai me mandar pra casa de novo?
Sem responder, a Pérola se transportou.
Aí Katelin parou mesmo, atônita. A Pérola somente desaparecia ao receber a ordem ou se havia o risco de ser vista. Muito corretamente, a moça interpretou aquele sumiço como um protesto.
A teimosia ainda a levou três quadras adiante; então, com um bufo irritado, desistiu do restaurante e da confusão. Em poucos minutos de passos acelerados, estava de volta a um ponto especial do sistema de transporte: o acesso à parte nobre da cidade.
Mais cedo, havia precisado de uma identidade falsa e muita habilidade para acessar a Cúpula 5 como visitante. Agora, encarou o prédio elegante, tirou os óculos e entrou. Os guardas do saguão fizeram um movimento em sua direção, mas, no instante seguinte, perfilaram-se impecavelmente.
– Alteza!
– Boa noite. A Guarda Imperial, por favor.
Não precisaria ter solicitado; ao ouvirem alteza, dois integrantes da Guarda Imperial surgiram de uma saleta contígua. Curvaram-se respeitosamente.
– Às suas ordens, alteza.
Os responsáveis pela segurança dos acessos às cúpulas centrais pertenciam aos altos escalões da Armada, a força policial do Império. Eram homens e mulheres no auge da capacidade física e intelectual, treinados e armados com o que havia de mais moderno. Muitos deles, sabia-se, tinham habilidades mentais atuantes.
Já a Guarda Imperial era milenar. Todos os Imperadores tinham a sua. Seu bisavô, o Rei Vermelho Jamion de Relana, tivera diversas edições de Guarda, algumas desprezíveis, outras aceitáveis, e a última invejável em termos de caráter e conduta; lamentavelmente, fora dizimada em um ataque a renegados. Jamion de Relana então a substituíra pela Armada Imperial, que passou a agir dentro das cidades de cúpulas de forma muito semelhante à polícia superficiana.
No entanto, Julian de Relana, o avô de Katelin, certo dia chegara à Nova Atlantis acompanhado de cinquenta rapazes mais ou menos de sua idade, vinte anos. Determinou que seriam a nova Guarda Imperial, os responsáveis pela segurança da Linhagem. O jovem chefe da inesperada Guarda era o capitão Eldar, que capitão chegara às cúpulas e, pelo jeito, capitão seria até morrer. Seus quarenta e nove comandados eram chamados de oficiais, e jamais tinham falado em promoção ou aposentadoria. Assim, a Guarda Imperial atual era composta por cinquenta velhotes pomposos e formais metidos em uniformes antiquados. Na cintura, em vez de armas de energia, usavam ridículas e brilhantes espadas.
Os que saudavam respeitosamente a princesa de Relana eram o baixinho oficial Trivor, que não chegava ao ombro de Katelin, e o oficial Maros, com seu espetacular bigodão branco.
– Boa noite, oficiais. Quero ir para casa. Imediatamente.
– Pois não, alteza. Acompanhe-nos.
O baixinho foi à frente de Katelin, como um batedor pronto a enfrentar perigos inimagináveis. O bigodudo protegeu a retaguarda. Ambos mantinham as mãos na empunhadura das respectivas espadas. Embora acostumada com aquele ritual desde a infância, Katelin suspirou. Em caso de emergência, seria mais provável ela defender a si e aos velhotes do que eles, a ela. Mas, paciência. Eles eram um modo rápido de voltar ao palacete.
A princesa foi conduzida a um pequeno e luxuoso veículo. Ocupou o confortável banco traseiro enquanto seus guardiães iam no dianteiro, separados da jovem por uma placa de polímero transparente. O baixinho dirigia e os cruzamentos do sistema de túneis mudavam seus tempos para permitir a passagem livre da Linhagem. O bigodudo se ocupava com o comunicador, decerto informando ao capitão Eldar que desta vez, excepcionalmente, a princesa havia pedido para voltar, em vez de precisar ser arrancada de algum tumulto. Talvez houvesse um médico à sua espera na Cúpula 1, além do capitão, seis integrantes da Guarda, a avó e meia dúzia de assessores...
Apesar do percurso sem interrupções e da boa velocidade desenvolvida, seriam ao menos vinte minutos até a Cúpula 1. Katelin afundou no estofado e buscou na memória as informações das trinta páginas que a Pérola mandara decorar. Analisou cada uma e, definitivamente, era só mais uma cúpula. Que raio de dados urgentes de suma importância poderiam estar escondidos ali? Algum tipo de código, talvez?

                   CONTINUA DIA 30

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