quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Herdeira? - 3

Conforme o combinado, vamos adiante na história. Esse trecho segue o do dia 21.



CAMINHANDO PELAS RUAS da Cúpula 5, a jovem princesa de dezesseis anos afagou a Pérola em seu bolso.
Lembrou de si mesma, a menina de doze anos, sozinha no quarto à noite, pensando e avaliando até decidir que o dia seguinte seria tão bom quanto qualquer outro para se declarar a nova Imperatriz. Tinha o direito, tinha o dever. E, pelo bem do Império, era o que faria.
A decisão estava tomada.
Então, acontecera o chamado. Estranho, desconhecido, irresistível.
Com toda sua lógica gritando e esperneando contra o absurdo, Katelin levantara da cama, vestira roupas discretas e, seguindo instruções que não sabia de onde vinham, inacreditavelmente escapulira do palacete sem ser vista. Desde a morte da família, cada passo seu era controlado. Naquela noite, foi como se a vigilância não existisse. As câmeras não a registravam. Os guardas olhavam para o outro lado quando ela passava. Estupefata, pisando no que mais parecia sonho do que realidade, Katelin viu-se fora do palacete e depois da protegidíssima Cúpula 1. As águas estavam desertas. Parecia estar em um lugar remoto, não no centro da capital do Império.
Katelin nadara, afastando-se da Cúpula 1. Com assombro, vira Nova Atlantis passar com impossível rapidez abaixo de si. Levara vários minutos para compreender que uma correnteza a carregava com tremenda velocidade, afastando-a da cidade. E, perplexa, identificou seu destino: o Palácio Imperial de Relana.
Com o coração acelerado de expectativa, Katelin deixara-se levar. Logo avistara o monumental Palácio, que refletia fracamente a claridade da noite de Lua cheia. Nunca o tinha visto assim. Era fantástico!
Se fechasse os olhos, a Katelin de dezesseis anos conseguia facilmente evocar aquela imagem: milhares de cintilações brancas delineando o Palácio no negrume das águas. Podia também lembrar o primeiro e rápido contato – Não se assuste, está protegida – um instante antes de as águas a carregarem abruptamente para o fundo, mergulhando-a na escuridão gelada de uma fenda. A pressão mostrava que descia fundo, muito fundo. O mundo desaparecera no negrume das profundezas, mas a sensação de proteção e aconchego permanecia. Finalmente, uma bela cintilação dourada no paredão da fenda fizera a princesa de Relana iluminar-se numa alvorada de ouro.
O Palácio solicitara identificação. A Linhagem respondera.
A correnteza abrandara progressivamente até liberar a menina ao lado do cristal dourado de onde vinha a luz. Era um círculo plano, de quinze centímetros de diâmetro, incrustado no que parecia ser rocha.
Katelin recordou-se de sua mão direita espalmada no cristal e sorriu o mesmo sorriso daquela noite distante.
O círculo brilhante se ampliara, abrindo como um diafragma. Tentara ver o que havia além, mas uma névoa espessa a impedia. Então, sem medo, havia entrado. E imediatamente perdera os sentidos ao receber o impacto do gigantesco Poder de Relana.
A garota despertara afinal, sem saber durante quanto tempo havia ficado inconsciente. Sentara no chão de cristal, encantada. Estava dentro de Relana! O aposento era grande e retangular; a luz suave vinha de paredes, teto e chão. Não havia móveis nem aberturas. A temperatura era agradável e, apesar da profundidade, o ar estava leve, fresco e perfumado. E, em sua mente, existiam informações que antes não estavam lá.
Com cautela e curiosidade, Katelin as analisara.
A primeira e mais enfática era sobre o Palácio. Aquele não era o poder de Relana. A maior parte da força fora bloqueada para possibilitar o contato. O Palácio havia se encarregado da transição água-ar, e também cuidara para que ninguém percebesse a ausência da menina. Os Lordes, e apenas eles, podiam saber que Relana a chamara. Ninguém mais. Nem a avó.
– Por quê?
A resposta de Relana viera com palavras, daquela vez:
Existe extremo perigo em sua justa decisão de reclamar o Trono. Não deve fazê-lo. Sua maior proteção é não parecer uma verdadeira integrante de Linhagem.
–­ ... Porque, se eu fizer isso, o que matou meus pais e meus irmãos vai se voltar contra mim! Então ainda existe?!
Sim. Ameaça sua vida e a dos Lordes. São muito jovens, não têm poder suficiente. O poder só virá com o tempo. Precisam esperar em silêncio e com discrição.
– Mas não posso continuar parada! O Conselho está acabando com tudo o que meus pais construíram!
A Linhagem pode e deve interferir, mas, por ora, é mais seguro não se exporem.
– Afinal, posso fazer alguma coisa ou não posso?
Com um intenso clarão, um pequeno globo de cristal dourado surgira à frente da princesa indignada.
Katelin de Relana, esta Pérola de Crialelar aceita suas mãos. Garantirá sua segurança e a dos Lordes, desde que seja obedecida. Guiará o aprendizado e o desenvolvimento de suas habilidades de Linhagem. Fará o mesmo pelos Lordes. Deve ser usada com responsabilidade e dignidade.
Fascinada, a princesa tocara o cristal...
Acordara em sua cama, encantada com o sonho tão maravilhoso. E descobrira que usava as roupas do sonho!
Então foi verdade? Se eu chamar, a Pérola vem?
Lembrava-se claramente das instruções de Relana e, usando a modulação mental correta, a princesa havia convocado a Pérola de Crialelar. Com uma chispa, o Artefato surgira em suas mãos.
Desde aquele dia, há quatro anos, a Pérola tinha ensinado, orientado e protegido. Sempre disponível, evitara que se metessem em numerosas confusões e os tirara de outras tantas. Diante da insistência em interferir nos desmandos do Conselho, os garotos foram orientados a sair da proteção da condessa. Ao mesmo tempo, deviam enfatizar as facetas mais inconsequentes de cada um. Podiam fazer o que quisessem, desde que não levantassem suspeitas.
– Quer dizer, parecer que somos só defeitos?
Sim. Jovens integrantes de Linhagem assim não representam ameaça.
Lerri rapidamente se tornara o brigão do grupo, distribuindo sopapos à menor provocação. O nariz do repórter do Só Observo! era sua vítima mais famosa, mas logo surgiriam outras. Quando não estava espalhando bordoadas, ele se atirava nos cassinos com Yonen. Yonen só saía da jogatina para as festas, e o Império não entendia como não estava na miséria, viciado em jogos de azar como era. A irmã de Yonen, Yeda, encontrara em Kelara a parceira perfeita para esportes radicais e aventuras perigosas. Todos acreditavam que as Ladies não teriam vidas muito longas. Lonal era o festeiro, o baderneiro sedutor e encantador. Mahanor, o mais velho dos Lordes, não estava disposto a jogar, namorar ou se meter em brigas. Seu maior defeito era se impor como o responsável por todos. Era o chato que corria, atarantado, atrás de amigos que nunca ouviam seus sábios conselhos. Glaira, irmã de Mahanor, sempre tinha sido muito quieta e sossegada. Depois da morte dos pais, ficara definitivamente desequilibrada, vivendo num mundo só seu.
Já a princesa de Relana era pior do que todos Lordes juntos. Quando entrava num cassino, era mais perdulária do que Lerri e Yonen. Arrastava Kelara e Yeda para riscos maiores do que elas pensariam em se meter. Diversas vezes, fora flagrada aos amassos com Lonal ou os outros Lordes. Katelin ria das aflições de Mahanor e se irritava com os poucos neurônios de Glaira, que a perseguia como uma sombra fiel.
Todos consideravam Katelin e seus Lordes a geração menos preparada já vista no Império. Por outro lado, eram generosos, sorridentes, cativantes. Entre suspiros conformados e a esperança de que os jovens melhorariam com o tempo, o Império os adorava.
A Pérola de Crialelar fizera muito bem seu trabalho.

                       CONTINUA NO DIA 26

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