quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Herdeira? - 5

Vamos nos organizar:


Herdeira? - 6 - no dia 2 de setembro, sábado
Herdeira? - 7 - no dia 6 de setembro, quarta-feira
Surpresa - no dia 9 de setembro, sábado. Tem a ver com o livro 4.

Quem quiser saber como continua, estarei esperando no estande da Qualis - Pavilhão Azul - F01/G02, com o livro, marcadores e brindes, durante toda a Bienal.
Agora, Herdeira? já está em pré-venda na Saraiva - link
Depois da Bienal, estará disponível no site da Mundo Uno também.

Nos outros dias, se o iPad colaborar, termos postagens do dia a dia da Bienal. Com excelentes notícias, espero!


Esta parte é a que se segue à postagem do dia 26.



CHEGOU À CÚPULA 1 aborrecida por não ter encontrado ao menos uma pista. Ignorou a bronca da avó, dispensou as aias, foi para seus aposentos e bateu a porta no nariz dos quatro velhotes da Guarda que a acompanharam passo a passo.
Nas amplas antessalas, a governanta e uma dúzia de serviçais a aguardavam. Katelin expulsou todo mundo. Não precisava de supervisão para tomar banho e não estava com fome. Só queria ficar sozinha!
Bateu a porta com um estrondo de estremecer paredes.
A governanta se retirou primeiro, tão empertigada quanto os velhotes da Guarda Imperial. As serviçais saíram logo depois, conjecturando que algo devia ter dado errado no programa da noite.
– Como os encontros dela são quase sempre com Lorde Lonal, é só vermos aonde ele andou! Imaginem se ele esqueceu nossa princesinha! – sussurrou uma delas, e todas abafaram risos. O charmoso e sorridente Lorde de Cenaros arrancava suspiros de todas as garotas do palacete.
– E coitadinha da Lady Glaira... Aturar o mau humor dela não é fácil!
– Ah, nem se preocupe. A Lady não entende quase nada. O que entende, esquece no outro dia.
– Ela é tão boazinha... Lady Glaira, quero dizer. Que pena que ficou assim...
Quietas, as outras concordaram. Os Lordes badernavam um bocado, mas eram simpáticos e inteligentes. Só Glaira havia ficado meio abobada desde o assassinato dos pais.


KATELIN TRANCOU a porta depois de, aparentemente, ter tentado arrancá-la ao bater.
O quarto era gigantesco, a cama com dossel era monumental, e a pobrezinha Lady Glaira devia estar dormindo nela, como sempre. Afinal, Glaira não desgrudava de Katelin.
A irritação de Katelin falava de problemas na incursão noturna. Glaira arredou o dossel de rendas, colocando-se de pé cheia de preocupação.
– O que houve, Kate? Alguém descobriu você?
– Não. Correu tudo bem, mas não estou entendendo nada, desta vez! Entrei lá, peguei os dados, saí, fui pra Cúpula 32 badernar alguma coisa, e acredita que a Pérola me mandou vir pra cá porque eram informações urgentes e importantes demais? E sumiu sem ordem, quando eu disse que ia tumultuar primeiro!
– Mas, se era urgente...
– Eram só dados de uma cúpula nova, Glaira. Estavam numa pasta, em cima da mesa de trabalho dele!
– Espere aí. – Glaira cortou a impaciência da amiga. – Calma, Kate. Me conte tudo desde o começo, com detalhes. A Pérola nunca se enganou antes.
Kate bufou e relatou desde a invasão ao gabinete até o retorno no veículo oficial. Glaira, sentada na cama, ativou um terminal de última geração, e Kate transferiu as fotos dos documentos para ele. Glaira analisou-as. Kate estava certa. Eram somente dados sobre uma nova cúpula.
– Pensei em um código ou coisa do tipo, mas são documentos-padrão – disse Kate. – Cada palavra está onde deveria estar! Só algumas estimativas estão erradas.
– Me mostre.
Kate localizou os dados e Glaira os examinou. Realmente, o material de construção era insuficiente.
– Espere... Tem outra coisa faltando, tão óbvia que nem tinha percebido. – Kate verificou novamente as primeiras páginas, conferindo o que sua memória informava. – Olhe. Não tem previsão de solo!
– Ok, são centenas de metros cúbicos de terra, mas é só terra, não exige preparação especial. Talvez por isso tenham deixado de fora. E você tem razão, não há nada de diferente que sugira um código embutido. É apenas o planejamento para uma ecocúpula de margem controlada. Os conselheiros parecem estar precisando de espaço para construir suas mansões.
– O que é repugnante, mas não urgente. – Kate trouxe para a cama uma travessa com frutas. – Quem precisa de espaço são os trabalhadores, que estão cada vez mais empilhados nas cúpulas recicladas.
Glaira passava as imagens no terminal para frente e para trás, tentando achar alguma discrepância que justificasse o aviso da Pérola.
– Boa sorte. – Kate ocupou-se com uma suculenta maçã. – Fiz isso na minha cabeça uma dúzia de vezes.
– E a Pérola?
– Está de birra porque não voltei correndo quando ela mandou. Já chamei, mas está se fazendo de surda. Alguma ideia?
– Vamos começar determinando o local de construção.
Katelin aprumou-se, atenta. Ao norte e leste, os despenhadeiros impediam a implantação de mais cúpulas. As recicladas, dos trabalhadores de baixo escalão, se concentravam no sul, e nenhum conselheiro pensaria em erguer uma elegante ecocúpula após as recicladas. Os abonados de Nova Atlantis planejavam continuar a expansão de suas cúpulas lindamente arborizadas e ajardinadas para o oeste, mas, para a surpresa geral, as prospecções indicaram rochas frágeis demais.
– Os anéis externos são muito próximos uns dos outros, não há como incluir mais nada entre eles. – Glaira procurou, no terminal, o mapa de relevo de Nova Atlantis. – Talvez estejam pensando em construir aqui, na parte antiga, onde ainda há espaço vazio entre as cúpulas.
– Se fosse o caso, já deveriam estar tentando mudar as leis que proíbem isso. Mas não estão.
– E por que só uma cúpula? – especulou Glaira. – Sempre projetam ao menos dez por vez. E os projetos nunca são exatamente iguais, porque cada uma precisa se adaptar às rochas nas quais vai ancorar.
As moças olharam juntas o mapa de Nova Atlantis. A única possibilidade era ao sul, após as cúpulas recicladas. Naquela direção, o platô de rochas maciças se estendia por dezenas de quilômetros.
– Não, eles nunca são exatamente iguais – repetiu Kate. – O projeto da base vai nos dizer aonde pretendem construir!
Glaira chamou o esquema da base e pretendia compará-lo com as possibilidades geográficas da área, mas Kate segurou o pulso da amiga. Olhou a tela sem entender.
– Não é uma cúpula nova. É uma velha! Veja o setor norte elevado e as três rochas no centro. Esta é a base da Cúpula 76, Glaira!
Glaira conferiu as informações fornecidas pela memória privilegiada de Kate. Os documentos se referiam à Cúpula 76, sem dúvida. A 76 fazia parte do segundo grupo de recicladas construídas. Era a maior delas e ficava bem próxima das ecocúpulas.
– Eles pretendem transformar a 76 em uma cúpula de margem controlada. – Kate olhou a imagem na tela, espantada. – O que pareciam especificações de uma cúpula nova são só os dados da 76. Não tem previsão de solo porque ele já está lá, e não precisam de muito material porque a maior parte está lá também. A 76 tem dois mil e seiscentos moradores. Onde vão colocar essa gente, se as outras recicladas estão lotadas e não há novas em construção?
– Havia algum computador ou terminal no gabinete dele, Kate?
– À vista, não. Nem me preocupei porque a Pérola só sinalizou para a pasta com esses papéis. Veja. – Katelin indicou o timbre no cabeçalho das folhas. – Foi impresso no Conselho. Se tem alguma coisa que completa as informações, não está na casa dele, ou a Pérola teria avisado. Verifique qual impressora ele usou.
As impressoras do Conselho não tinham identificação, mas Glaira e Mahanor haviam criado um programa que localizava pequenas particularidades de cada uma.
– Duas possibilidades: a da portaria 3 e a do gabinete do conselheiro, e ele jamais imprimiria algo na portaria.
– Ok. Então, no terminal pessoal dele, lá no Conselho, tem alguma coisa relacionada às informações, e é por causa disso que a Pérola está tão nervosinha. Certo, coisa tinhosa?
A coisa tinhosa surgiu numa alegre chispa dourada sobre o edredom, entre Kate e Glaira.
– Pareceu um sim­ – comentou Glaira.
– E foi – assegurou Kate. – A melhor hora pra pegar vai ser amanhã à noite, durante a recepção aos novos conselheiros.
– Talvez seja o motivo da pressa da Pérola. – Glaira olhou o espetacular globo brilhante que tanto os ajudava. – Não vamos precisar invadir. Vamos estar lá dentro. O que acha?
– Ela está contente porque entendemos o que fazer e não vai responder mais nada agora.
– Lerri e Yonen estão longe, mas podemos chamar Kelara e Yeda.
– Deixe as duas em Arimar. Mahanor, Lonal, você e eu damos conta. – Kate olhou o diagrama da base da Cúpula 76, que continuava aberto na tela. – Você e Mahanor providenciam alguma distração enquanto Lonal e eu nos encarregamos de invadir o gabinete e o terminal daquele sujeito. 

sábado, 26 de agosto de 2017

Herdeira? - 4



Iniciando o capítulo 2, conforme nosso cronograma.
Esse deve ser lido após o texto do dia 23.





KATELIN ABANDONOU os devaneios ao se aproximar de uma das comportas da Cúpula 5.
A enorme comporta dupla estava com as portas abertas, e Katelin novamente admirou a fantástica obra de Engenharia. Sessenta anos de funcionamento sem apresentar um único problema. O sistema desenvolvido pelo doutor Reis era tão perfeito que ninguém fora capaz de aperfeiçoá-lo.
Passou pela comporta interna, correndo os olhos por cada detalhe do elegante arco que se elevava a vinte e cinco metros de altura. Parecia novo. No início do mês, durante os testes de rotina, aquela comporta tinha se fechado duas vezes mais rápido do que as da Cúpula 154. No entanto, como o tempo de fechamento estava dentro dos padrões de segurança, a anomalia foi ignorada.
Após a comporta interna, a câmara de descompressão se projetava quarenta metros para fora da cúpula. Acompanhava a altura e o design em arco da comporta; sua estrutura era poderosa, feita para suportar uma possível invasão do mar. A jovem suspirou. As novas câmaras de descompressão não tinham metade daquela resistência.
Projetadas como setores de segurança, as áreas de descompressão eram inicialmente limpas, despojadas. Com o passar dos anos, os moradores exigiram modificações. A câmara por onde Katelin passava era luxuosamente decorada, para agradar aos abastados usuários.
– Se a água invadisse isso, voaria coisa pra todo lado – resmungou Katelin para si mesma, seguindo o amplo e sinuoso caminho de pedras. Ao seu lado, desfilavam estátuas, árvores, bancos e flores. – A começar por aquilo!
Aquilo era um dos grandes motivos de fúria da princesa: as esteiras rápidas de transporte, que ocupavam as duas laterais da câmara. No lado direito, as usadas por moradores e seus convidados eram amplas, com belas paredes transparentes; no lado esquerdo, a esteira de serviço ficava oculta atrás de muros cobertos por plantas. Eram divisórias comuns, que seriam arrancadas em um instante se o mar invadisse. Mais coisas para atingir as pessoas numa situação de emergência, na opinião de Katelin. Os imperiais de Nova Atlantis pareciam ter esquecido que moravam em bolhas de ar ancoradas no fundo do mar, o que não era, de forma alguma, um estilo de vida repleto de segurança.
Paralelamente ao paredão que escondia a esteira de serviço, ficava a estreita rua de duas mãos. Para os padrões superficianos, seria um beco apertado. Para os pequenos veículos de Nova Atlantis, era suficiente.
Alcançou a segunda comporta, passou a identidade falsa pela catraca e saiu sem problemas. À sua frente, o túnel de interligação se estendia por centenas de metros, com as esteiras de transporte, a rua, um monotrilho e até uma calçada, para os raros que preferiam ir a pé.
Faltavam ainda dez minutos para o monotrilho quase deserto iniciar o próximo deslocamento; além da princesa, havia apenas alguns empregados cochilando em seus assentos. Katelin escolheu um lugar no fundo, longe de todos. Desembarcou na segunda estação: uma engenhosa mini cúpula no entroncamento de vários túneis. Ali, entrou em outro transporte bem mais cheio e desceu, junto com boa parte do tumulto, em uma movimentada cúpula comercial de Nova Atlantis. Passeou um pouco, olhou vitrines e decidiu que o restaurante mais esnobe era uma boa pedida para a noite. O lugar exigia, no mínimo, traje social, mas não barraria a princesa de Relana, mesmo vestida de arrombadora de gabinetes. A cara do emproadíssimo maitre valeria a noite!
Não. Analisar os dados, imediatamente.
Katelin quase parou, espantada. Logo retomou o ritmo dos passos, sussurrando:
– Pra que tanta pressa? Se eu não arrumar alguma confusão, vovó desconfia. Faço uma desordem rápida e pronto.
Dados urgentes de suma importância.
– São só especificações de uma nova cúpula. – A jovem continuou andando. – Ei, ficou tão quieta, de repente! Não vai me mandar pra casa de novo?
Sem responder, a Pérola se transportou.
Aí Katelin parou mesmo, atônita. A Pérola somente desaparecia ao receber a ordem ou se havia o risco de ser vista. Muito corretamente, a moça interpretou aquele sumiço como um protesto.
A teimosia ainda a levou três quadras adiante; então, com um bufo irritado, desistiu do restaurante e da confusão. Em poucos minutos de passos acelerados, estava de volta a um ponto especial do sistema de transporte: o acesso à parte nobre da cidade.
Mais cedo, havia precisado de uma identidade falsa e muita habilidade para acessar a Cúpula 5 como visitante. Agora, encarou o prédio elegante, tirou os óculos e entrou. Os guardas do saguão fizeram um movimento em sua direção, mas, no instante seguinte, perfilaram-se impecavelmente.
– Alteza!
– Boa noite. A Guarda Imperial, por favor.
Não precisaria ter solicitado; ao ouvirem alteza, dois integrantes da Guarda Imperial surgiram de uma saleta contígua. Curvaram-se respeitosamente.
– Às suas ordens, alteza.
Os responsáveis pela segurança dos acessos às cúpulas centrais pertenciam aos altos escalões da Armada, a força policial do Império. Eram homens e mulheres no auge da capacidade física e intelectual, treinados e armados com o que havia de mais moderno. Muitos deles, sabia-se, tinham habilidades mentais atuantes.
Já a Guarda Imperial era milenar. Todos os Imperadores tinham a sua. Seu bisavô, o Rei Vermelho Jamion de Relana, tivera diversas edições de Guarda, algumas desprezíveis, outras aceitáveis, e a última invejável em termos de caráter e conduta; lamentavelmente, fora dizimada em um ataque a renegados. Jamion de Relana então a substituíra pela Armada Imperial, que passou a agir dentro das cidades de cúpulas de forma muito semelhante à polícia superficiana.
No entanto, Julian de Relana, o avô de Katelin, certo dia chegara à Nova Atlantis acompanhado de cinquenta rapazes mais ou menos de sua idade, vinte anos. Determinou que seriam a nova Guarda Imperial, os responsáveis pela segurança da Linhagem. O jovem chefe da inesperada Guarda era o capitão Eldar, que capitão chegara às cúpulas e, pelo jeito, capitão seria até morrer. Seus quarenta e nove comandados eram chamados de oficiais, e jamais tinham falado em promoção ou aposentadoria. Assim, a Guarda Imperial atual era composta por cinquenta velhotes pomposos e formais metidos em uniformes antiquados. Na cintura, em vez de armas de energia, usavam ridículas e brilhantes espadas.
Os que saudavam respeitosamente a princesa de Relana eram o baixinho oficial Trivor, que não chegava ao ombro de Katelin, e o oficial Maros, com seu espetacular bigodão branco.
– Boa noite, oficiais. Quero ir para casa. Imediatamente.
– Pois não, alteza. Acompanhe-nos.
O baixinho foi à frente de Katelin, como um batedor pronto a enfrentar perigos inimagináveis. O bigodudo protegeu a retaguarda. Ambos mantinham as mãos na empunhadura das respectivas espadas. Embora acostumada com aquele ritual desde a infância, Katelin suspirou. Em caso de emergência, seria mais provável ela defender a si e aos velhotes do que eles, a ela. Mas, paciência. Eles eram um modo rápido de voltar ao palacete.
A princesa foi conduzida a um pequeno e luxuoso veículo. Ocupou o confortável banco traseiro enquanto seus guardiães iam no dianteiro, separados da jovem por uma placa de polímero transparente. O baixinho dirigia e os cruzamentos do sistema de túneis mudavam seus tempos para permitir a passagem livre da Linhagem. O bigodudo se ocupava com o comunicador, decerto informando ao capitão Eldar que desta vez, excepcionalmente, a princesa havia pedido para voltar, em vez de precisar ser arrancada de algum tumulto. Talvez houvesse um médico à sua espera na Cúpula 1, além do capitão, seis integrantes da Guarda, a avó e meia dúzia de assessores...
Apesar do percurso sem interrupções e da boa velocidade desenvolvida, seriam ao menos vinte minutos até a Cúpula 1. Katelin afundou no estofado e buscou na memória as informações das trinta páginas que a Pérola mandara decorar. Analisou cada uma e, definitivamente, era só mais uma cúpula. Que raio de dados urgentes de suma importância poderiam estar escondidos ali? Algum tipo de código, talvez?

                   CONTINUA DIA 30

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Herdeira? - 3

Conforme o combinado, vamos adiante na história. Esse trecho segue o do dia 21.



CAMINHANDO PELAS RUAS da Cúpula 5, a jovem princesa de dezesseis anos afagou a Pérola em seu bolso.
Lembrou de si mesma, a menina de doze anos, sozinha no quarto à noite, pensando e avaliando até decidir que o dia seguinte seria tão bom quanto qualquer outro para se declarar a nova Imperatriz. Tinha o direito, tinha o dever. E, pelo bem do Império, era o que faria.
A decisão estava tomada.
Então, acontecera o chamado. Estranho, desconhecido, irresistível.
Com toda sua lógica gritando e esperneando contra o absurdo, Katelin levantara da cama, vestira roupas discretas e, seguindo instruções que não sabia de onde vinham, inacreditavelmente escapulira do palacete sem ser vista. Desde a morte da família, cada passo seu era controlado. Naquela noite, foi como se a vigilância não existisse. As câmeras não a registravam. Os guardas olhavam para o outro lado quando ela passava. Estupefata, pisando no que mais parecia sonho do que realidade, Katelin viu-se fora do palacete e depois da protegidíssima Cúpula 1. As águas estavam desertas. Parecia estar em um lugar remoto, não no centro da capital do Império.
Katelin nadara, afastando-se da Cúpula 1. Com assombro, vira Nova Atlantis passar com impossível rapidez abaixo de si. Levara vários minutos para compreender que uma correnteza a carregava com tremenda velocidade, afastando-a da cidade. E, perplexa, identificou seu destino: o Palácio Imperial de Relana.
Com o coração acelerado de expectativa, Katelin deixara-se levar. Logo avistara o monumental Palácio, que refletia fracamente a claridade da noite de Lua cheia. Nunca o tinha visto assim. Era fantástico!
Se fechasse os olhos, a Katelin de dezesseis anos conseguia facilmente evocar aquela imagem: milhares de cintilações brancas delineando o Palácio no negrume das águas. Podia também lembrar o primeiro e rápido contato – Não se assuste, está protegida – um instante antes de as águas a carregarem abruptamente para o fundo, mergulhando-a na escuridão gelada de uma fenda. A pressão mostrava que descia fundo, muito fundo. O mundo desaparecera no negrume das profundezas, mas a sensação de proteção e aconchego permanecia. Finalmente, uma bela cintilação dourada no paredão da fenda fizera a princesa de Relana iluminar-se numa alvorada de ouro.
O Palácio solicitara identificação. A Linhagem respondera.
A correnteza abrandara progressivamente até liberar a menina ao lado do cristal dourado de onde vinha a luz. Era um círculo plano, de quinze centímetros de diâmetro, incrustado no que parecia ser rocha.
Katelin recordou-se de sua mão direita espalmada no cristal e sorriu o mesmo sorriso daquela noite distante.
O círculo brilhante se ampliara, abrindo como um diafragma. Tentara ver o que havia além, mas uma névoa espessa a impedia. Então, sem medo, havia entrado. E imediatamente perdera os sentidos ao receber o impacto do gigantesco Poder de Relana.
A garota despertara afinal, sem saber durante quanto tempo havia ficado inconsciente. Sentara no chão de cristal, encantada. Estava dentro de Relana! O aposento era grande e retangular; a luz suave vinha de paredes, teto e chão. Não havia móveis nem aberturas. A temperatura era agradável e, apesar da profundidade, o ar estava leve, fresco e perfumado. E, em sua mente, existiam informações que antes não estavam lá.
Com cautela e curiosidade, Katelin as analisara.
A primeira e mais enfática era sobre o Palácio. Aquele não era o poder de Relana. A maior parte da força fora bloqueada para possibilitar o contato. O Palácio havia se encarregado da transição água-ar, e também cuidara para que ninguém percebesse a ausência da menina. Os Lordes, e apenas eles, podiam saber que Relana a chamara. Ninguém mais. Nem a avó.
– Por quê?
A resposta de Relana viera com palavras, daquela vez:
Existe extremo perigo em sua justa decisão de reclamar o Trono. Não deve fazê-lo. Sua maior proteção é não parecer uma verdadeira integrante de Linhagem.
–­ ... Porque, se eu fizer isso, o que matou meus pais e meus irmãos vai se voltar contra mim! Então ainda existe?!
Sim. Ameaça sua vida e a dos Lordes. São muito jovens, não têm poder suficiente. O poder só virá com o tempo. Precisam esperar em silêncio e com discrição.
– Mas não posso continuar parada! O Conselho está acabando com tudo o que meus pais construíram!
A Linhagem pode e deve interferir, mas, por ora, é mais seguro não se exporem.
– Afinal, posso fazer alguma coisa ou não posso?
Com um intenso clarão, um pequeno globo de cristal dourado surgira à frente da princesa indignada.
Katelin de Relana, esta Pérola de Crialelar aceita suas mãos. Garantirá sua segurança e a dos Lordes, desde que seja obedecida. Guiará o aprendizado e o desenvolvimento de suas habilidades de Linhagem. Fará o mesmo pelos Lordes. Deve ser usada com responsabilidade e dignidade.
Fascinada, a princesa tocara o cristal...
Acordara em sua cama, encantada com o sonho tão maravilhoso. E descobrira que usava as roupas do sonho!
Então foi verdade? Se eu chamar, a Pérola vem?
Lembrava-se claramente das instruções de Relana e, usando a modulação mental correta, a princesa havia convocado a Pérola de Crialelar. Com uma chispa, o Artefato surgira em suas mãos.
Desde aquele dia, há quatro anos, a Pérola tinha ensinado, orientado e protegido. Sempre disponível, evitara que se metessem em numerosas confusões e os tirara de outras tantas. Diante da insistência em interferir nos desmandos do Conselho, os garotos foram orientados a sair da proteção da condessa. Ao mesmo tempo, deviam enfatizar as facetas mais inconsequentes de cada um. Podiam fazer o que quisessem, desde que não levantassem suspeitas.
– Quer dizer, parecer que somos só defeitos?
Sim. Jovens integrantes de Linhagem assim não representam ameaça.
Lerri rapidamente se tornara o brigão do grupo, distribuindo sopapos à menor provocação. O nariz do repórter do Só Observo! era sua vítima mais famosa, mas logo surgiriam outras. Quando não estava espalhando bordoadas, ele se atirava nos cassinos com Yonen. Yonen só saía da jogatina para as festas, e o Império não entendia como não estava na miséria, viciado em jogos de azar como era. A irmã de Yonen, Yeda, encontrara em Kelara a parceira perfeita para esportes radicais e aventuras perigosas. Todos acreditavam que as Ladies não teriam vidas muito longas. Lonal era o festeiro, o baderneiro sedutor e encantador. Mahanor, o mais velho dos Lordes, não estava disposto a jogar, namorar ou se meter em brigas. Seu maior defeito era se impor como o responsável por todos. Era o chato que corria, atarantado, atrás de amigos que nunca ouviam seus sábios conselhos. Glaira, irmã de Mahanor, sempre tinha sido muito quieta e sossegada. Depois da morte dos pais, ficara definitivamente desequilibrada, vivendo num mundo só seu.
Já a princesa de Relana era pior do que todos Lordes juntos. Quando entrava num cassino, era mais perdulária do que Lerri e Yonen. Arrastava Kelara e Yeda para riscos maiores do que elas pensariam em se meter. Diversas vezes, fora flagrada aos amassos com Lonal ou os outros Lordes. Katelin ria das aflições de Mahanor e se irritava com os poucos neurônios de Glaira, que a perseguia como uma sombra fiel.
Todos consideravam Katelin e seus Lordes a geração menos preparada já vista no Império. Por outro lado, eram generosos, sorridentes, cativantes. Entre suspiros conformados e a esperança de que os jovens melhorariam com o tempo, o Império os adorava.
A Pérola de Crialelar fizera muito bem seu trabalho.

                       CONTINUA NO DIA 26

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Herdeira? - II



De acordo com um bando de gente, meio capítulo não vale.
Portanto, segue a história! Esse texto encaixa no final do texto do dia 15.



A CÚPULA 5 fora a quinta a ser construída. Nova Atlantis se estendia por cento e cinquenta e quatro cúpulas, e Katelin às vezes pensava como teria sido viver naqueles primórdios, quando a capital submarina do Império estava sendo criada.
A primeira cúpula havia sido construída há mais de sessenta anos e servira como base para a construção das quatro seguintes, que formavam um triângulo irregular em torno da pioneira. Apesar de suas estruturas independentes, as Cúpulas 2 e 3 ficavam unidas e eram contadas como uma só. A Cúpula 4 era a mais afastada, e a 5 marcava a terceira ponta do triângulo. Essas cinco formavam a parte mais antiga e nobre de Nova Atlantis. Depois, outras dez foram construídas, novamente em posições sem sentido. Algumas ficavam muito próximas umas das outras, a Cúpula 12 quase se dependurava numa fenda e a 15 ficava tão perto da 1 que parecia parte das cinco primeiras. Olhando-se de cima, era como se alguém tivesse reunido quinze meias-esferas e atirado no fundo, e cada uma simplesmente ficara no lugar aonde tinha caído.
Katelin acreditava que não havia aleatoriedade alguma envolvida. O idealizador da cidade submersa fora Josep Reis, um dos maiores gênios do Império. Ele não teria determinado lugares tão exatos se não fosse importante.
Depois de a Cúpula 15 ter sido finalizada, seu criador decidira que quinze era um bom número. As pessoas não concordaram. A vida ali era maravilhosa. Todos queriam mais cúpulas. Muito mais!
– Construam-nas vocês, então.
Ele abrira mão da tecnologia, e as cidades submersas proliferaram pelo Império inteiro.
Nova Atlantis cresceu. Trinta e seis cúpulas novas, formando um caprichoso anel, circularam as pioneiras. Sua construção se manteve fiel às originais; as moradias foram leiloadas e alcançaram valores exorbitantes, o que desencadeou a implantação imediata de mais dois anéis de cúpulas residenciais.
Na época do terceiro anel, os engenheiros se gabavam de suas melhorias, em especial a disposição em anéis concêntricos e o melhor aproveitamento da relação tamanho do habitat/número de moradores.
Katelin suspirou, incomodada. Ali começara a vulnerabilidade de Nova Atlantis. Mais habitantes por metro cúbico, significava, basicamente, mais dinheiro ganho com menos trabalho. No entanto, a ânsia de morar fora da água era tão grande que o Império achou ótimo quando as cúpulas começaram a brotar como cogumelos superficianos.
Surgiram cúpulas com denominações diferentes.
As pioneiras tomaram o nome de ecocúpulas: autossuficientes, com a população firmemente controlada e enormes áreas verdes. Uma ecocúpula podia funcionar como um sistema fechado; tinha vegetação suficiente para sustentar a vida sem a necessidade de qualquer tecnologia. As ecocúpulas formavam o coração de Nova Atlantis e qualquer espaço ali era disputado a preço de ouro.
O terceiro anel inaugurou as ecocúpulas de margem controlada. Ainda autossustentáveis, tinham autonomia menor do que suas antecessoras e podiam sobreviver sem auxílio da tecnologia por algumas semanas. Os imperiais não se preocuparam. Asfixiar num domo de ar submerso? Não. Se houvesse problemas, era só sair para o mar. Na verdade, a tecnologia avançava a passos tão rápidos que nunca foi necessário apelar para medidas de emergência. Todos os problemas eram solucionados antes de perturbarem a rotina.
Antes das cúpulas, os imperiais tinham três formas de viver: a primeira, na água, onde ainda estava a maior parte da população. A segunda, limitada a poucos privilegiados, ao ar livre, nas ilhas que rodeavam o Palácio de Relana. Esse arquipélago era um dos raros pontos emersos do Império Atlante. A terceira forma era dentro do Palácio Imperial de Relana, onde as lendárias comportas mentais garantiam ar e ambiente seco.
Os pensamentos de Katelin desviaram para o Palácio de cristal de seus antepassados.
A Linhagem de Relana governava o Império Atlante desde tempos imemoriais, e sempre vivera em seu magnífico Palácio dourado. Gigantesco e totalmente submerso, dizia a tradição que, dentro dele, havia ar ou água, dependendo da vontade de seus senhores. Nos tempos antigos, milhares de atlantes viviam em Relana; o Palácio era uma verdadeira cidade regida por leis e habilidades mentais. Com o passar do tempo, sua população diminuíra e, há quatro gerações, a própria Linhagem Imperial o abandonara, passando a viver na Ilha de Relana, coração do arquipélago com o mesmo nome. Com a construção de Nova Atlantis, a Linhagem de Relana mudara-se para a Cúpula 1.
O poderoso e temido Jamion de Relana fora o último Imperador a entrar no Palácio Dourado. Agora a fabulosa estrutura de cristal estava silenciosa e lacrada, negando acesso até mesmo à sua Linhagem. Semienterrado na areia, com suas torres espiraladas e domos sobrepostos reluzindo ao menor toque de luz, o Palácio era um contínuo lembrete de que os atlantes haviam perdido contato com os dons especiais de sua raça: as habilidades mentais.
A moça olhou para cima, e sua atenção voltou ao presente, à abóboda transparente que era seu céu. Estava literalmente coberta de tecnologia.
Até o surgimento de Nova Atlantis, o único local adequado para as Ciências Físicas era o Arquipélago de Relana, uma vez que a maior parte dos experimentos não podia ser feita dentro d'água. Com a chegada das cúpulas, as Ciências Físicas alegremente se mudaram para elas e o Império experimentou um inédito desenvolvimento na Ciência convencional, o que colaborou para impulsionar a instalação das cidades submersas. Era um sistema em retroalimentação: quanto mais cúpulas, mais espaço para a Ciência; quanto mais progrediam as Ciências Físicas, maior a facilidade em construir cúpulas.
Surgiram então as ecocúpulas de margem estreita. Praticamente não-sustentáveis, sua atmosfera se mantinha estável graças a recicladoras de ar. As ecocúpulas de margem estreita se tornaram o abrigo de escolas, universidades, laboratórios e cientistas, e também das fábricas e indústrias exigidas pelo crescimento tecnológico.
Afinal, vieram as cúpulas recicladas, com a habitabilidade mantida exclusivamente por recicladoras de ar. Nelas moravam os trabalhadores menos qualificados e a mão-de-obra doméstica das ecocúpulas.
Era, na opinião de Katelin, um verdadeiro e asqueroso sistema de castas. E a última eram os periféricos, atlantes que se amontoavam em torno das cúpulas, esperando ansiosamente uma chance de entrar. Verdadeiras favelas submarinas cercavam cada cidade do Império. Eram águas sem lei, onde a vida era curta e sofrida.
A jovem apertou forte a Pérola. Se pudesse fazer alguma coisa por aqueles periféricos, qualquer coisa...
Estão fazendo um excelente trabalho. O segredo não invalida suas ações.
– Aquela gente morre por motivos que as cúpulas escolheram ignorar – murmurou Katelin, entre os dentes cerrados. – Como fome, drogas, violência. E ninguém se importa!
Vocês se importam.
– Isso acaba com minha paciência! – rosnou a moça. – Eu podia fazer tudo às claras, e queria ver alguém me parar!
Parar, não. Matar, sim. Tanto a você quanto aos seus Lordes. O segredo é a melhor proteção. Basta aguardar o momento correto. Seu tempo há de chegar.
Katelin calou-se, contrariada. Seu tempo já teria chegado, se não fosse a Pérola. Porque, afinal, o Trono do Império Atlante era seu.


KATELIN, A GAROTA LOURA, linda e invasora de gabinetes, era ninguém menos do que Katelin de Relana, a futura Imperatriz dos oceanos.
Nove anos atrás, a comitiva onde estavam seus pais e seus dois irmãos mais velhos fora exterminada por renegados, inimigos milenares dos atlantes. Aos sete anos, ela se tornara a única sobrevivente de Relana.
Com a morte dos pais, Katelin ficara sob a responsabilidade da avó materna, a condessa Cristina. A Linhagem Imperial passava por seu pai, Jolar; a avó, portanto, não fazia parte da Linhagem, mas ninguém discutira seu direito de se encarregar da neta. Não só dela, na verdade. A morte do Imperador, Imperatriz e príncipes fora seguido, em pouco tempo, pelo assassinato dos Lordes de Atlantis, o que deixara seus filhos, quatro meninos e três meninas, órfãos. A condessa Cristina tomara conta de todos.
Depois da morte dos pais, as crianças não protestaram quando a condessa os afastou de tudo. Amontoaram-se, uma ninhada unida pela dor. Uns extravasaram a revolta em brigas, como Lerri. Glaira e o irmão Mahanor preferiram silenciar. Lonal ria e brincava como se nada tivesse acontecido e não houvesse pais a prantear.
Katelin se mantivera longe tanto de brigas quanto de isolamento. Era a princesa. Precisava dar o exemplo porque, em alguns anos, assumiria sua posição de direito: a Imperatriz de Relana.
Sem o Imperador e os Lordes, o Império ficou acéfalo. O Conselho, que apenas assessorava informalmente o Imperador, se auto investiu na regência até a princesa ter idade suficiente para governar. Como não houve questionamentos, tornou-se governo de fato. No início, geriu o Império de maneira adequada. Logo, no entanto, os conselheiros perceberam que não havia ninguém para supervisioná-los. Foi como abrir uma represa de ganância e amoralidade, que cresceu exponencialmente nos anos seguintes. Sem respeitar nada nem ninguém, o Conselho estabeleceu sua própria lei: encher os bolsos, proteger a si, a seus afilhados e amigos.
Aos doze anos, paciência de Katelin com tantos desmandos, roubos e injustiças se esgotou. Era hora de Relana retomar seu lugar, e de a Herdeira se tornar a Imperatriz. Sua primeira tarefa seria faxinar aquele Conselho corrupto.
No entanto, não fizera nada disto. Por causa da Pérola.


                       CONTINUA NO DIA 23

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Herdeira?

E olha eu sumida de novo!
Um pedacinho da capa!
E olha eu aparecendo de novo!

Que tal uma degustação de Herdeira? para o aquece?

Começando do começo...



Capítulo 1

Invasora de gabinetes



SÓ OBSERVO!
Ontem, o cais da Cúpula 1 de Nova Atlantis agitou-se consideravelmente com a precipitada partida dos Lordes Lerri de Katalir e Yonen de Novonax. Nossos sempre tão descontraídos Lordes mostravam-se tensos e irritados, negando-se a informar o destino de sua viagem. Embarcaram no Raio de Luz, o mais veloz e luxuoso submóvel das docas imperiais. E acionaram a velocidade máxima assim que ultrapassaram o perímetro de Nova Atlantis!
Curiosos sobre o motivo da pressa dos Lordes? Nós também!
Nossas fontes informam que os Lordes rumam diretamente para o Rio Proibido de Talos que, como todos sabem, é um formidável e assassino conjunto de correntezas submarinas que se esgueira por quilômetros e quilômetros de ravinas, cavernas e abismos. Devido à instabilidade crescente das corredeiras, o festival de Talos foi cancelado este ano. Não há segurança para a realização de prova alguma, por mais radical que seja o esporte e por mais riscos que o participante aceite assumir. Esportes radicais em Talos? Loucura, garantem os especialistas.
NO ENTANTO, há rumores de que um festival está sendo organizado CLANDESTINAMENTE!
Isto nos leva a concluir que:
1. Organização clandestina significa utilizar os pontos mais perigosos do Rio Proibido, uma vez que estes são os únicos livres de vigilância. Afinal, para que vigiar uma corredeira que mata todos que se aproximam dela? Não deveriam ser os pontos perigosos justamente os mais vigiados??? Aguardamos respostas a essas questões!!!
2. Os Lordes Yonen de Novonax e Lerri de Katalir são notórios apreciadores de cassinos e o maior risco que costumam correr é o de perder fortunas em jogos de azar. Com certeza, seriam apenas espectadores em esportes radicais!
3. ENTRETANTO, Lady Yeda de Novonax, irmã de Lorde Yonen, e Lady Kelara de Laranael, protegida de Lorde Lerri, são conhecidas amantes de adrenalina. E ambas não são vistas há dois dias em Nova Atlantis! Seriam elas o motivo da súbita correria? Estarão os Lordes em uma heroica missão de resgate???
Nossos correspondentes em Talos encontram-se atentos! Mantenham-se conectados!


KATELIN SORRIU ao recordar cada palavra da matéria postada há duas horas. O Só Observo! era a maior mídia sensacionalista do Império Atlante, seguida por milhões de curiosos, e ganhava a vida falando dos famosos, o que tornava os jovens Lordes de Atlantis seus alvos favoritos. Eventualmente, os repórteres também se tornavam alvos, mas de revides furiosos. O último e mais notável incidente fora entre o explosivo Lorde Lerri e um repórter que, no cassino, noticiava ao vivo cada vez que o Lorde perdia. Enfurecido com a maré de azar e os risos do repórter, o rapaz mandou o punho com raiva, estraçalhando o microfone, os dentes e o nariz do intrometido. Tudo devidamente filmado, claro. Após aquele episódio, os repórteres continuaram irritantes, mas de uma distância maior.
Enfim, o importante era que todo o Império Atlante estava focado em Lerri e Yonen correndo para Talos para impedir Yeda e Kelara de participarem de um festival clandestino de esportes radicais. Perfeito!
Em Talos, a primeira coisa que fariam seria acabar com o maldito festival clandestino. Se o festival oficial, cercado de medidas de segurança, matava pelo menos dez por ano, imagine quantos morreriam no clandestino! Nesses casos, os repórteres escandalosos do Só Observo! eram muito convenientes. Perseguindo os jovens Lordes, acabavam sendo levados a situações em que seus exageros se tornavam úteis. Naquela vez, por exemplo, certamente falariam sem parar sobre a necessidade de vigiar os pontos mais perigosos do Rio Proibido. Entrevistariam pessoas chorosas que haviam perdido parentes nas corredeiras, inventariam alguns fatos e catástrofes para enfeitar seus relatos, escolheriam imagens chocantes. E serviriam de estopim para uma melhor regulamentação no acesso àquelas corredeiras assassinas. Depois que começassem o barulho, bastaria convencer o Conselho de que aquilo renderia bons dividendos eleitorais; então, talvez, com sorte, conseguiriam aumentar a segurança em torno do Rio de Talos em meio ano. Era um bom prazo. Bem antes do próximo festival serial killer, ao menos.
Lerri e Yonen deveriam também tentar descobrir os motivos de as corredeiras terem enlouquecido nos últimos meses. Não seria fácil, mas talvez os dois rapazes obtivessem algum resultado. Eles eram ótimos.
Quanto a Kelara e Yeda, as Ladies estavam longe de Talos, seu Rio Proibido e seu festival clandestino. A fuga do palacete fora magistral. A pretexto de estudos, as duas tinham se trancado nos aposentos de Kelara. A condessa, desconfiada da súbita dedicação aos livros, fora verificar e descobrira que as encrenqueiras haviam desaparecido de aposentos com janelas na altura do sexto andar. Então Lerri se lembrara do festival do Rio Proibido, desencadeando a correria que levara para Talos a elite dos repórteres do Só Observo!. Na verdade, as duas garotas estavam em Arimar, uma cidade sob cúpulas a apenas quatro horas de Nova Atlantis, a capital do Império Atlante.
Logo após trancar a porta, Yeda e Kelara haviam rapidamente se disfarçado. Dentaduras e sobrancelhas postiças, perucas, lentes de contato e enchimento para bochechas fizeram as Ladies se parecerem com qualquer pessoa, exceto elas mesmas. Em dez minutos, Katelin batera de leve na porta, no sinal combinado; apesar do palacete cheio de gente, guiara-as até a saída sem serem vistas. Yeda e Kelara se misturaram com o constante vai-e-vem dos funcionários da Cúpula 1, passando em seguida para as cúpulas comerciais, das quais partiram para Arimar. Assim, enquanto eram procuradas em Talos, as jovens tinham total tranquilidade para investigar as estações de tratamento de rejeitos de Arimar. Há meses, surgiam denúncias de que as estações estavam despejando grandes quantidades de poluentes no mar. Estranhamente, as denúncias eram sempre arquivadas. E, mais estranhamente ainda, as estações pertenciam a um rico e influente conselheiro. Kelara e Yeda não teriam qualquer dificuldade em reunir as provas necessárias.
Silenciosa, Katelin subiu mais quatro metros na copa da árvore. Roupas manchadas de verde e marrom, cabelos e rosto sob uma touca negra, olhos claros camuflados por óculos de lentes escuras, ela era pouco mais do que uma sombra. Apenas as luvas estavam presas ao cinto. Preferia escalar com as mãos livres. Alcançou um galho fino e longo que se aproximava bastante da janela aberta no segundo andar. Apesar de tudo estar escuro e quieto lá dentro, ela se imobilizou e aguardou.
Abaixo, no jardim, dois guardas fizeram a ronda. A equipe de segurança da mansão alterava os horários a cada vinte e quatro horas, mas informações confiáveis não eram problema para Katelin. A jovem esperou que sumissem no canto da casa para avançar. A cada passo dado com a cautelosa elegância de uma ginasta, o galho oscilava de leve, abaixando conforme se aproximava do objetivo: a janela. A três metros, Katelin saltou. Seus pés pousaram com precisão no peitoril. Doze metros abaixo, o jardim.
– E sem rede de segurança – sussurrou ela, pulando para dentro do gabinete.
Os olhos já estavam acostumados à escuridão, mas, mesmo assim, Katelin se deu alguns instantes, aproveitando para colocar as luvas. Analisou o aposento. Um sofá e duas poltronas de aparência cara. Painéis de madeira, quadros, esculturas abstratas ao lado da porta fechada. Uma grande mesa de trabalho de madeira, cheia de gavetas nas laterais e decerto com muitos compartimentos secretos. Madeira era sempre um indicativo de poder no Império Atlante, assim como os abajures e o lustre de cristal, típicos da superfície. O ambiente era luxuoso, bem adequado a um dos mais antigos membros do Conselho Imperial.
A jovem verificou a porta. Trancada. Aproximou-se em seguida da mesa, ajoelhou-se no tapete macio e se curvou para frente, como uma bola. Colocou a mão em concha perto do peito, fechou os olhos e cochichou:
– Pode vir.
Com um intenso clarão de transporte, a Pérola de Crialelar surgiu na mão de sua proprietária. A luz foi abafada pelo corpo de Katelin.
– Ok, chega de brilhar. Apague o máximo que puder.
O Artefato obedeceu, e logo Katelin podia abrir os olhos sem se ofuscar.


A PÉROLA era um globo de cristal com apenas dez centímetros de diâmetro. A parte externa era transparente, límpida e incolor. O centro era... maravilhoso! Como uma pequena galáxia em mil tons de dourado, guardava nuvens brilhantes que se moviam como fumaça iridescente, relâmpagos de luz cintilante, minúsculas explosões de cor... Katelin podia passar horas olhando o incrível poder que se espreguiçava no interior do Artefato.
Mas não era a beleza que tornava as Pérolas de Crialelar inestimáveis. Era sua habilidade de mostrar o presente, o passado... e vislumbres do futuro.
A Pérola tinha revelado o local onde o festival clandestino aconteceria. Lerri e Yonen não precisariam procurar; antes de saírem de Nova Atlantis, sabiam para onde precisariam ir. Katelin havia levado Kelara e Yeda para fora do palacete graças à Pérola. A própria Katelin estava naquele gabinete porque a Pérola garantira que havia uma importante informação a ser coletada ali.
– Onde? – Levantou-se no aposento repleto de esconderijos em potencial.
O brilho discreto se concentrou em um ponto do cristal e indicou a mesa de trabalho. Katelin torceu a boca. Considerando a quantidade de negociatas, falcatruas e roubos daquele conselheiro, esperava ao menos ter que arrombar um cofre. A mesa era um anticlímax. Mas, enfim...
Analisou a mesa.
O homem era desonesto, mas organizado. As pilhas de pastas se alinhavam em duas fileiras à esquerda; à direita, havia papéis com o timbre do Conselho, envelopes, carimbos e canetas. Katelin se focou nas numerosas gavetas e no espaço escuro sob a mesa, que era totalmente fechada nas laterais e na frente: um autêntico buraco negro, capaz de abrigar grande quantidade de nichos. Com a voz tão baixa que ela mal se ouvia, perguntou:
– Sistema de alarme ou monitoramento?
Não.
– Como assim, sem monitoramento? Eles sempre se protegem atrás de mil esquemas de segurança. Bom, o que quero está nas gavetas ou no buraco?
A Pérola não respondeu.
– Não se faça de difícil. Não posso passar horas procurando.
Total silêncio.
– Ah, é? Pois eu vou sentar no chão e esperar você sair dessa teimosia muda.
Juntando a ação às palavras, Katelin sentou mesmo. O silêncio se estendeu, mas a jovem não moveu um músculo. Tentar achar alguma coisa naquela mesa era o mesmo que procurar a proverbial agulha superficiana no palheiro. Pior, encontrar uma coisa que nem sabia o que era! Ou a Pérola ajudava, ou aquela invasão era trabalho perdido e risco desnecessário.
Com o equivalente a um suspiro mental, o Artefato brilhou suavemente e concentrou a luz no topo. Katelin levantou, aborrecida.
– Já devia ter aprendido quem é a campeã de teimosia aqui, dona Pérola. Ok. Onde?
A Pérola indicou as pilhas de pastas.
– Só pode estar brincando. Qual pilha?
A segunda da fileira interna.
– Quatro pastas. Qual delas?
A de cima.
– Mas que droga de informação importante ele deixaria atirada assim? Alguma armadilha?
Não.
– Estranho. Vamos ver o que tem aqui. Preciso de luz.
Katelin largou a Pérola, que flutuou como um pequeno balão para iluminar a leitura. As folhas impressas estavam soltas; exibiam desenhos, gráficos, estimativas e protocolos. A garota não entendeu. Os documentos se referiam à construção de uma nova cúpula submersa. Numa cidade feita de cúpulas interligadas, era só rotina.
A ordem, no entanto, veio com rara severidade:
Memorize e fotografe.
– Ou seja, tem qualquer coisa aqui que não estou enxergando. – Katelin, meticulosamente, memorizou e fotografou trinta páginas. – O conselheiro sabe o que tem aqui ou está como eu, olhando sem ver?
Ele sabe.
– Está escondendo a falcatrua na cara de todo mundo?
Sim.
– Isso não é nada bom. – Recolocou as folhas na pasta, fechou-a e a repôs na pilha. – Ficou algum sinal da minha visita?
Não.
– Tenho saída livre?
Sim. A próxima ronda será em sete minutos.
Katelin subiu no peitoril da janela, tirou as luvas e, com um salto preciso, dependurou-se no galho. Em poucos minutos alcançou os limites da propriedade sem tocar no chão, passando de uma árvore para outra com a destreza de um gato.
– Alguém por perto?
Não.
Ela saltou para a rua e livrou-se dos óculos e da touca, revelando o rosto belíssimo. Feições delicadas, fantásticos olhos azuis-esverdeados muito claros cintilando na escuridão, lábios cheios e bem desenhados, cabelos louros despencando numa onda até a cintura, alta e graciosa, Katelin era uma jovem deslumbrante. Escondeu os olhos ao recolocar os óculos e prendeu os cabelos num coque desarrumado. A jaqueta reversível deixou de ser uma sóbria roupa de invadir gabinetes para se tornar uma peça cheia de estilo. Vestiu-a sobre a camiseta branca e colocou um colar de contas coloridas.
Enquanto Katelin fazia estas rápidas mudanças, a Pérola flutuou ao seu lado. Ao terminar, a garota a colocou num dos bolsos. Manteve-se atenta aos arredores, mas sua cabeça estava nos dados sobre a nova cúpula.
Sem se esconder, caminhou com naturalidade pelas ruas da Cúpula 5.