sábado, 27 de maio de 2017

Livro IV - sexto dia de viagem (ainda)

Livro IV, sexto dia de viagem, capítulo 19


Ambientando vocês, o clã Melbourne encontrou Harmon e Steve. Não têm a menor suspeita que eles também vão para a Escola Avançada. E surgiram alguns... probleminhas! 


No acampamento onde eles estão,
a vista é mais ou menos isso!
(na imaginação da autora)

Ao entrar, Steve encontrou a turma da barraca laranja vindo em sentido contrário, rumo à saída.
– E Peggy? – exigiu Teo, ríspido. Steve não gostou, mas respondeu:
– Lá fora, com Harry. Quase desmaiou porque não jantou e a pressão baixou. Deviam ser menos muquiranas! Tim, você está me devendo um chocolate quente e um doce.
– Peggy se sentiu mal e você não chamou a gente?!
Eles saíram quase correndo. Steve segurou Pam, esperando o grupo se afastar.
***
Peggy se surpreendeu com a chegada deles. Cercaram-na de perguntas nervosas, e a garota não precisaria de sensibilidade alguma para perceber que eles tinham brigado. Feio.
– Calma, gente. Fiquei tonta, mas já passou, e é claro que não desmaiei. Estou bem agora. Steve foi muito atencioso.
– Steve! – Teo, irritado, verificou que Pam não estava com eles. – Ela ficou lá dentro com ele!
Teo correu de volta, Tim gritou para esperar e correu atrás, Tom pediu rapidamente a Peggy:
– Faça alguma coisa!
E correu atrás dos irmãos.
– Lis, o que houve?!
A baixinha, de braços cruzados e cara amarrada, indicou Harry com os olhos.
– Harry não vai ouvir nada! Não é, Harry?
Alguma coisa na voz. No modo de virar a cabeça. O jeito que os olhos de cor errada chisparam, que os cabelos balançaram. Cabelos que deveriam ser bem mais compridos, movendo-se como uma onda brilhante quando ela mexesse a cabeça.
Harmon teve absoluta certeza de que conhecia aquela garota.
– Com licença.
– Não, você fica. – Peggy segurou-o pelo casaco sem se dar ao trabalho de olhá-lo. – Fale, Lis!
Lis não discutiu a permanência da montanha humana e respondeu, objetiva:
– Teo e Pam. Harry virou as costas por meio segundo e Teo man-dou Pam ficar longe de Steve. Man-dou mesmo. Lembra a vez que ele montou em desaforo e man-dou Pam lavar o piso da cozinha porque estava imundo? Pois é. Isso!
Ric não sabia o que tinha acontecido no caso do piso da cozinha, mas enfatizou:
– Eu estava junto. Foi bem descabido. Pam ficou furiosa, e com razão.
– Não precisa explicar, Ric, Peggy entendeu, e sabe que furiosa é uma definição muito suave pra Pam!
– Onde está Ted? – Peggy passou para a parte prática. O único que conseguiria controlar Teo, ao menos um pouco, era seu gêmeo.
– Sei lá. Sumiu! Se soubesse onde ele está, já tinha chamado!
– Saiu bem agarrado com Anna quando vocês trocaram de par – informou Ric, e Lis fulminou-o com um olhar assassino. Quando ela procurara o irmão, Ric não tinha falado!
– Ache o dois e traga Ted já!
– Mas, Peggy, eles devem estar...
– Não me interessa nem se estão pelados. Repita o que Lis disse sobre a cozinha e Ted se veste em menos de dez segundos. Vá. Depressa!
Ric foi. Peggy se voltou para Harry.
– Steve obedece você?
– Sim.
– Chame-o!
O príncipe herdeiro de Sarad não se surpreendeu nem se aborreceu com a ordem. Apertou os lábios e assobiou de forma espantosa.
– Você vai me ensinar a assobiar assim! – exclamou Lis.
 *** 
Steve esperou a turma se afastar rumo a Harry e Peggy. Olhou Pam, que estava enfurecida, e explicou:
– Peggy se sentiu tonta, por isso a levei lá para fora. Ela está bem agora, estávamos entrando quando Harry chegou. O que houve com você?
A pergunta foi acompanhada por um belo sorriso. Steve tinha muita experiência em manejar garotas com crises de ciúme por sua causa.
– Você tem irmão, não tem?! Então, não me pergunte!
– Ah. Foram eles.
– É, foram eles, sim!
– Mas só dois são seus irmãos. Os outros são primos.
– Na prática, não faz a menor diferença! – Pam agarrou Steve e puxou-o para um canto de corredor. Teo passou correndo de volta, seguido por Tim e, uns passos atrás, Tom. – E, se eu falar com Teo agora, vou voar nos olhos dele!
Ele ia perguntar o motivo da briga quando duas garotas se aproximaram, cheias de sorrisos e olhares melosos. Mais uma vez, Steve não teve tempo de falar. Pam se adiantou, com chispas de fúria na voz:
– Caiam fora. Ele está comigo!
Elas recuaram dois passos, intimidadas.
– Mas você é muito grossa, garota!
– Grossa é o que eu vou me tornar em três segundos, se vocês não sumirem!
– Gato, quando se livrar dela dessa louca, venha falar com a gente.
– Louca! Que espetacular! – Pam avançou um passo, erguendo o punho fechado na frente da cara da que tinha falado. – É um, é dois, é...
Assustadas com a expressão homicida de Pam, elas sumiram. Ela virou para o surpreso Steve:
– Se você ousar sair de perto de mim agora, nunca mais olhe na minha cara, entendeu?!
Ele ainda tentava entender o que estava acontecendo quando ouviu o assobio de Harmon. Segurou a mão de Pam e arrastou-a para fora, parando com ela diante de Harmon, Peggy e Lis.
– Faça o que Peggy disser – determinou Harmon.
– O quê?!
– Mantenha Pam longe de Teo de qualquer jeito!
– Eu não preciso ficar longe daquele idiota! – esbravejou Pam, possessa.
– Vai ficar longe dele, sim! – Peggy apontou um dedo autoritário para ela. – Ou esta noite de diversão acaba na segurança! Que droga, Pam, são só machos marcando território!
– São machos o quê?! – espantou-se Steve.
– Cale a boca, lula! Não dá pra falar com Teo agora, Pam. Só fique longe dele!
– Então não pode ir pra mesa – meteu-se Lis. – Que horror, Pam, acho que você vai ter que dançar com ele de novo. Bem o que Teo proibiu!
Proibiu. Maravilhosa palavra para Pam erguer bem o queixo, expressão firme e olhos faiscantes, tornando-se mais bonita do que já era.
– Vamos dançar, Steve!
– Bem no meio da pista, pra os rapazes conseguirem segurar Teo longe! – avisou Peggy. – Lula, modere os tentáculos. Não é pra provocar!
– Faça o que Peggy diz – repetiu Harmon, encarando Steve. – Ou seja, modere-se.
– Eu não preciso dela repetindo o que você vive falando à minha volta!
– E não faça xixi em nenhum poste – arrematou Lis.
– Lulas não fazem xixi em postes. Usam os tentáculos pra estrangular quem entra no seu território, sabia?!
– Lulas ameaçadas expelem uma nuvem de tinta e fogem! – corrigiu Pam. – Se você fugir, acabo com Teo e depois com você! Vai ficar comigo, para aquele imbecil saber que não manda em mim! Vamos dançar, Steve. Agora!
– Vá – determinou Harmon.
– Ok, eu vou! Mas você vai me explicar o que está havendo!
Era com Pam, que retrucou:
– Que explicação você precisa sobre machos marcando território, criatura cheia de pose?!
– Pose?! Eu nunca fujo de encrencas, fique avisada!
– Ótimo. Não comece hoje e tudo fica bem! E não me irrite com seus tentáculos porque já estou irritada o suficiente!
Pam e Steve voltaram para dentro, discutindo. Peggy suspirou.
– Desculpe envolver vocês em brigas de família, Harry.
– Mesmo se Ric já achou Ted, é melhor vocês entrarem também pra ficar de olho no povo, nas poças de sangue, nos pescoços e fígados – disse Lis. – Aproveitem e dancem bem agarradinhos como estavam antes. Daí pode ser que Teo exploda e pare de torrar a paciência de todo mundo!
– Lis, sem provocações. Por favor!
– Eu só vou dar desconto porque não quero ir pra segurança.

domingo, 21 de maio de 2017

Livro IV - sexto dia de viagem

Livro IV, sexto dia de viagem, capítulo 16

Devagar e sempre, aos trancos, com paradas e retomadas, o livro IV vai avançando.

Elle Fanning é, sem dúvida, bem do jeitinho
que vejo Lis. Concordam?



– Essa rede de supermercados é ótima. – Entraram e Pam largou a mochila ao lado da porta principal. – Vamos reabastecer aqui.
Foi às compras com Teo, Tim, Jean e Lis, que fazia questão de conferir se Pam compraria as porcarias corretas para uma pirralha se empanturrar. Anna, completamente à vontade em sua versão mochileira, se interessou pelos cachecóis e gorros de uma loja de conveniência. Ted acompanhou-a. Tom foi ao banheiro; Peggy e Ric ficaram com as mochilas e violões.
– Você está quieta, séria e prestando uma atenção esquisita a tudo. – Ric aproveitou imediatamente o momento de privacidade. – Se me disser que está tudo bem, eu não vou acreditar, portanto podemos pular essa parte. O que há?
– Eu não sei.
– Oh. E especificando um pouco melhor? É seu senso de perigo?
– Sim e não.
– Novo oh. Peggy, esse seu jeito silencioso me preocupa mais do que uma crise de pânico. Me diga o que há e prometo que fica entre nós.
– Você entende bastante de sensitivos e sensibilidade. – Ela corria os olhos em torno com aparente despreocupação.
– É, fui um aluno aplicado lá no meu mundo. Mas, mais do que isso, você não é a Peggy que conheci no barco. Aquela ria e brincava. Você mal sorri. Não sei como seus irmãos não percebem.
– Estão mais preocupados por Tim não estar badernando do que com meu silêncio. São cinco dias sem aprontar com ninguém. Ele nunca sossegou tanto tempo.
– Bom, eu estou mais preocupado com você. – Ric apoiou as costas na parede. – O que há, garota? O que está pressentindo? O risco de reconhecerem seus irmãos é tão grande assim?
Com um suspiro, Peggy desistiu da vistoria aos arredores e se voltou para o rapaz.
– É maior do que o previsto, mas só ia causar correria, não perigo. Estou interferindo e dando avisos pra podermos terminar a viagem como planejamos, sem aterrissar na Escola antes da hora. Sei que estamos com a retaguarda bem protegida e meu senso de perigo concorda com isso. Minha inquietação não vem daí.
– Ok, você acaba de admitir que se sente inquieta e que não é com a viagem. Adiante.
– Não é com sermos reconhecidos, mas é com a viagem. – A garota suspirou de novo. Era complicado passar para palavras uma sensação que nem ela entendia bem. – Como se a viagem levasse ao desconhecido numa rota cheia de desafios.
Era uma colocação estranha o suficiente para Ric se dar uns segundos antes de dizer:
– Desafios no caminho e desconhecido na chegada? Não deveria ser desafios na chegada? É um dos pontos de chegada mais desafiadores do mundo, mas não é, de jeito nenhum, desconhecido. Sabemos muito bem o que nos espera lá.
– Pois é. – Peggy deu um sorrisinho nada feliz. – Minha cabeça diz: viagem com sobressaltos e chegada com desafios. A sensibilidade diz: viagem com desafios e chegada ao desconhecido. E adivinhe só quem costuma estar com a razão em coisas assim! Até agora, a viagem foi complicada, mas não foi um desafio. É como se o desafio ainda estivesse nos... me esperando.
– Esperando só você?
Ela abanou a cabeça com desânimo.
– Um desafio para todos, que vai dizer respeito especialmente a mim. Ou algo do tipo. Sabe a sensação de que vai ter prova-surpresa valendo seu pescoço?
– Não, mas posso imaginar. E não gostei da menção ao seu pescoço.
– Tom está voltando. Conversamos outra hora.
Ric imaginou o que poderia colocar em risco uma garota que, como aquela, tinha enfrentado serpentes marinhas com tanta coragem. Manteve os pensamentos longe da expressão e engrenou um assunto aleatório com Tom.
Peggy lembrou que o pescoço mais vulnerável de um sensitivo não era o físico, era o emocional. Estremeceu de repente, e estremecimentos vindos de sua sensibilidade eram incomuns. Droga. O que poderia ameaçar seu pescoço emocional, e ainda envolver a família toda? Com outro estremecimento, desejou que Peter estivesse ali, pronto para espatifar qualquer coisa que a perturbasse. E travou os pensamentos, agora realmente alarmada. Se estava pensando no seu dirlon Apocalipse como proteção, é porque a encrenca seria ENORME! Cruzou os braços, esfregou-os e olhou novamente em torno. Sempre sabia quando estava sendo vigiada ou ouvida, sua sensibilidade era exata quanto a isso. Então... por que estava com tanta impressão de ser observada, se a sensibilidade garantia que não estava acontecendo?
Com outro arrepio de desconforto, Peggy massageou de novo os braços.
– Está com frio? – perguntou Tom, atencioso.
– Não... Não estou, Tom, obrigada. Foi só não ter o que fazer com as mãos. Está tudo bem.
A expressão de Ric traduziu exatamente o que ele pensou: mentirosa!