terça-feira, 15 de agosto de 2017

Herdeira?

E olha eu sumida de novo!
Um pedacinho da capa!
E olha eu aparecendo de novo!

Que tal uma degustação de Herdeira? para o aquece?

Começando do começo...



Capítulo 1

Invasora de gabinetes



SÓ OBSERVO!
Ontem, o cais da Cúpula 1 de Nova Atlantis agitou-se consideravelmente com a precipitada partida dos Lordes Lerri de Katalir e Yonen de Novonax. Nossos sempre tão descontraídos Lordes mostravam-se tensos e irritados, negando-se a informar o destino de sua viagem. Embarcaram no Raio de Luz, o mais veloz e luxuoso submóvel das docas imperiais. E acionaram a velocidade máxima assim que ultrapassaram o perímetro de Nova Atlantis!
Curiosos sobre o motivo da pressa dos Lordes? Nós também!
Nossas fontes informam que os Lordes rumam diretamente para o Rio Proibido de Talos que, como todos sabem, é um formidável e assassino conjunto de correntezas submarinas que se esgueira por quilômetros e quilômetros de ravinas, cavernas e abismos. Devido à instabilidade crescente das corredeiras, o festival de Talos foi cancelado este ano. Não há segurança para a realização de prova alguma, por mais radical que seja o esporte e por mais riscos que o participante aceite assumir. Esportes radicais em Talos? Loucura, garantem os especialistas.
NO ENTANTO, há rumores de que um festival está sendo organizado CLANDESTINAMENTE!
Isto nos leva a concluir que:
1. Organização clandestina significa utilizar os pontos mais perigosos do Rio Proibido, uma vez que estes são os únicos livres de vigilância. Afinal, para que vigiar uma corredeira que mata todos que se aproximam dela? Não deveriam ser os pontos perigosos justamente os mais vigiados??? Aguardamos respostas a essas questões!!!
2. Os Lordes Yonen de Novonax e Lerri de Katalir são notórios apreciadores de cassinos e o maior risco que costumam correr é o de perder fortunas em jogos de azar. Com certeza, seriam apenas espectadores em esportes radicais!
3. ENTRETANTO, Lady Yeda de Novonax, irmã de Lorde Yonen, e Lady Kelara de Laranael, protegida de Lorde Lerri, são conhecidas amantes de adrenalina. E ambas não são vistas há dois dias em Nova Atlantis! Seriam elas o motivo da súbita correria? Estarão os Lordes em uma heroica missão de resgate???
Nossos correspondentes em Talos encontram-se atentos! Mantenham-se conectados!


KATELIN SORRIU ao recordar cada palavra da matéria postada há duas horas. O Só Observo! era a maior mídia sensacionalista do Império Atlante, seguida por milhões de curiosos, e ganhava a vida falando dos famosos, o que tornava os jovens Lordes de Atlantis seus alvos favoritos. Eventualmente, os repórteres também se tornavam alvos, mas de revides furiosos. O último e mais notável incidente fora entre o explosivo Lorde Lerri e um repórter que, no cassino, noticiava ao vivo cada vez que o Lorde perdia. Enfurecido com a maré de azar e os risos do repórter, o rapaz mandou o punho com raiva, estraçalhando o microfone, os dentes e o nariz do intrometido. Tudo devidamente filmado, claro. Após aquele episódio, os repórteres continuaram irritantes, mas de uma distância maior.
Enfim, o importante era que todo o Império Atlante estava focado em Lerri e Yonen correndo para Talos para impedir Yeda e Kelara de participarem de um festival clandestino de esportes radicais. Perfeito!
Em Talos, a primeira coisa que fariam seria acabar com o maldito festival clandestino. Se o festival oficial, cercado de medidas de segurança, matava pelo menos dez por ano, imagine quantos morreriam no clandestino! Nesses casos, os repórteres escandalosos do Só Observo! eram muito convenientes. Perseguindo os jovens Lordes, acabavam sendo levados a situações em que seus exageros se tornavam úteis. Naquela vez, por exemplo, certamente falariam sem parar sobre a necessidade de vigiar os pontos mais perigosos do Rio Proibido. Entrevistariam pessoas chorosas que haviam perdido parentes nas corredeiras, inventariam alguns fatos e catástrofes para enfeitar seus relatos, escolheriam imagens chocantes. E serviriam de estopim para uma melhor regulamentação no acesso àquelas corredeiras assassinas. Depois que começassem o barulho, bastaria convencer o Conselho de que aquilo renderia bons dividendos eleitorais; então, talvez, com sorte, conseguiriam aumentar a segurança em torno do Rio de Talos em meio ano. Era um bom prazo. Bem antes do próximo festival serial killer, ao menos.
Lerri e Yonen deveriam também tentar descobrir os motivos de as corredeiras terem enlouquecido nos últimos meses. Não seria fácil, mas talvez os dois rapazes obtivessem algum resultado. Eles eram ótimos.
Quanto a Kelara e Yeda, as Ladies estavam longe de Talos, seu Rio Proibido e seu festival clandestino. A fuga do palacete fora magistral. A pretexto de estudos, as duas tinham se trancado nos aposentos de Kelara. A condessa, desconfiada da súbita dedicação aos livros, fora verificar e descobrira que as encrenqueiras haviam desaparecido de aposentos com janelas na altura do sexto andar. Então Lerri se lembrara do festival do Rio Proibido, desencadeando a correria que levara para Talos a elite dos repórteres do Só Observo!. Na verdade, as duas garotas estavam em Arimar, uma cidade sob cúpulas a apenas quatro horas de Nova Atlantis, a capital do Império Atlante.
Logo após trancar a porta, Yeda e Kelara haviam rapidamente se disfarçado. Dentaduras e sobrancelhas postiças, perucas, lentes de contato e enchimento para bochechas fizeram as Ladies se parecerem com qualquer pessoa, exceto elas mesmas. Em dez minutos, Katelin batera de leve na porta, no sinal combinado; apesar do palacete cheio de gente, guiara-as até a saída sem serem vistas. Yeda e Kelara se misturaram com o constante vai-e-vem dos funcionários da Cúpula 1, passando em seguida para as cúpulas comerciais, das quais partiram para Arimar. Assim, enquanto eram procuradas em Talos, as jovens tinham total tranquilidade para investigar as estações de tratamento de rejeitos de Arimar. Há meses, surgiam denúncias de que as estações estavam despejando grandes quantidades de poluentes no mar. Estranhamente, as denúncias eram sempre arquivadas. E, mais estranhamente ainda, as estações pertenciam a um rico e influente conselheiro. Kelara e Yeda não teriam qualquer dificuldade em reunir as provas necessárias.
Silenciosa, Katelin subiu mais quatro metros na copa da árvore. Roupas manchadas de verde e marrom, cabelos e rosto sob uma touca negra, olhos claros camuflados por óculos de lentes escuras, ela era pouco mais do que uma sombra. Apenas as luvas estavam presas ao cinto. Preferia escalar com as mãos livres. Alcançou um galho fino e longo que se aproximava bastante da janela aberta no segundo andar. Apesar de tudo estar escuro e quieto lá dentro, ela se imobilizou e aguardou.
Abaixo, no jardim, dois guardas fizeram a ronda. A equipe de segurança da mansão alterava os horários a cada vinte e quatro horas, mas informações confiáveis não eram problema para Katelin. A jovem esperou que sumissem no canto da casa para avançar. A cada passo dado com a cautelosa elegância de uma ginasta, o galho oscilava de leve, abaixando conforme se aproximava do objetivo: a janela. A três metros, Katelin saltou. Seus pés pousaram com precisão no peitoril. Doze metros abaixo, o jardim.
– E sem rede de segurança – sussurrou ela, pulando para dentro do gabinete.
Os olhos já estavam acostumados à escuridão, mas, mesmo assim, Katelin se deu alguns instantes, aproveitando para colocar as luvas. Analisou o aposento. Um sofá e duas poltronas de aparência cara. Painéis de madeira, quadros, esculturas abstratas ao lado da porta fechada. Uma grande mesa de trabalho de madeira, cheia de gavetas nas laterais e decerto com muitos compartimentos secretos. Madeira era sempre um indicativo de poder no Império Atlante, assim como os abajures e o lustre de cristal, típicos da superfície. O ambiente era luxuoso, bem adequado a um dos mais antigos membros do Conselho Imperial.
A jovem verificou a porta. Trancada. Aproximou-se em seguida da mesa, ajoelhou-se no tapete macio e se curvou para frente, como uma bola. Colocou a mão em concha perto do peito, fechou os olhos e cochichou:
– Pode vir.
Com um intenso clarão de transporte, a Pérola de Crialelar surgiu na mão de sua proprietária. A luz foi abafada pelo corpo de Katelin.
– Ok, chega de brilhar. Apague o máximo que puder.
O Artefato obedeceu, e logo Katelin podia abrir os olhos sem se ofuscar.


A PÉROLA era um globo de cristal com apenas dez centímetros de diâmetro. A parte externa era transparente, límpida e incolor. O centro era... maravilhoso! Como uma pequena galáxia em mil tons de dourado, guardava nuvens brilhantes que se moviam como fumaça iridescente, relâmpagos de luz cintilante, minúsculas explosões de cor... Katelin podia passar horas olhando o incrível poder que se espreguiçava no interior do Artefato.
Mas não era a beleza que tornava as Pérolas de Crialelar inestimáveis. Era sua habilidade de mostrar o presente, o passado... e vislumbres do futuro.
A Pérola tinha revelado o local onde o festival clandestino aconteceria. Lerri e Yonen não precisariam procurar; antes de saírem de Nova Atlantis, sabiam para onde precisariam ir. Katelin havia levado Kelara e Yeda para fora do palacete graças à Pérola. A própria Katelin estava naquele gabinete porque a Pérola garantira que havia uma importante informação a ser coletada ali.
– Onde? – Levantou-se no aposento repleto de esconderijos em potencial.
O brilho discreto se concentrou em um ponto do cristal e indicou a mesa de trabalho. Katelin torceu a boca. Considerando a quantidade de negociatas, falcatruas e roubos daquele conselheiro, esperava ao menos ter que arrombar um cofre. A mesa era um anticlímax. Mas, enfim...
Analisou a mesa.
O homem era desonesto, mas organizado. As pilhas de pastas se alinhavam em duas fileiras à esquerda; à direita, havia papéis com o timbre do Conselho, envelopes, carimbos e canetas. Katelin se focou nas numerosas gavetas e no espaço escuro sob a mesa, que era totalmente fechada nas laterais e na frente: um autêntico buraco negro, capaz de abrigar grande quantidade de nichos. Com a voz tão baixa que ela mal se ouvia, perguntou:
– Sistema de alarme ou monitoramento?
Não.
– Como assim, sem monitoramento? Eles sempre se protegem atrás de mil esquemas de segurança. Bom, o que quero está nas gavetas ou no buraco?
A Pérola não respondeu.
– Não se faça de difícil. Não posso passar horas procurando.
Total silêncio.
– Ah, é? Pois eu vou sentar no chão e esperar você sair dessa teimosia muda.
Juntando a ação às palavras, Katelin sentou mesmo. O silêncio se estendeu, mas a jovem não moveu um músculo. Tentar achar alguma coisa naquela mesa era o mesmo que procurar a proverbial agulha superficiana no palheiro. Pior, encontrar uma coisa que nem sabia o que era! Ou a Pérola ajudava, ou aquela invasão era trabalho perdido e risco desnecessário.
Com o equivalente a um suspiro mental, o Artefato brilhou suavemente e concentrou a luz no topo. Katelin levantou, aborrecida.
– Já devia ter aprendido quem é a campeã de teimosia aqui, dona Pérola. Ok. Onde?
A Pérola indicou as pilhas de pastas.
– Só pode estar brincando. Qual pilha?
A segunda da fileira interna.
– Quatro pastas. Qual delas?
A de cima.
– Mas que droga de informação importante ele deixaria atirada assim? Alguma armadilha?
Não.
– Estranho. Vamos ver o que tem aqui. Preciso de luz.
Katelin largou a Pérola, que flutuou como um pequeno balão para iluminar a leitura. As folhas impressas estavam soltas; exibiam desenhos, gráficos, estimativas e protocolos. A garota não entendeu. Os documentos se referiam à construção de uma nova cúpula submersa. Numa cidade feita de cúpulas interligadas, era só rotina.
A ordem, no entanto, veio com rara severidade:
Memorize e fotografe.
– Ou seja, tem qualquer coisa aqui que não estou enxergando. – Katelin, meticulosamente, memorizou e fotografou trinta páginas. – O conselheiro sabe o que tem aqui ou está como eu, olhando sem ver?
Ele sabe.
– Está escondendo a falcatrua na cara de todo mundo?
Sim.
– Isso não é nada bom. – Recolocou as folhas na pasta, fechou-a e a repôs na pilha. – Ficou algum sinal da minha visita?
Não.
– Tenho saída livre?
Sim. A próxima ronda será em sete minutos.
Katelin subiu no peitoril da janela, tirou as luvas e, com um salto preciso, dependurou-se no galho. Em poucos minutos alcançou os limites da propriedade sem tocar no chão, passando de uma árvore para outra com a destreza de um gato.
– Alguém por perto?
Não.
Ela saltou para a rua e livrou-se dos óculos e da touca, revelando o rosto belíssimo. Feições delicadas, fantásticos olhos azuis-esverdeados muito claros cintilando na escuridão, lábios cheios e bem desenhados, cabelos louros despencando numa onda até a cintura, alta e graciosa, Katelin era uma jovem deslumbrante. Escondeu os olhos ao recolocar os óculos e prendeu os cabelos num coque desarrumado. A jaqueta reversível deixou de ser uma sóbria roupa de invadir gabinetes para se tornar uma peça cheia de estilo. Vestiu-a sobre a camiseta branca e colocou um colar de contas coloridas.
Enquanto Katelin fazia estas rápidas mudanças, a Pérola flutuou ao seu lado. Ao terminar, a garota a colocou num dos bolsos. Manteve-se atenta aos arredores, mas sua cabeça estava nos dados sobre a nova cúpula.
Sem se esconder, caminhou com naturalidade pelas ruas da Cúpula 5.


sábado, 8 de julho de 2017

Aqui Jean Rieve...

Aqui Jean Rieve, repórter e personagem...

Olá a todos.
Como muitos já sabem, minha autora sempre ocupada e na correria resolveu me dar vez e voz.
Ela descobriu que, quando vai escrever como ela mesma, seja no perfil do Face ou nas páginas, as palavras de repente somem, faltam, ou se atrapalham, por serem remoídas demais.
No entanto, ao me fazer falar, seus dedos voam e não há hesitações. Ela sabe me fazer falar. Com facilidade. Sobre qualquer assunto.
Então, em inúmeras situações a partir de agora, ela falará através de mim, Jean Rieve, um jovem repórter - um foca - que foi a Porto Alto seguindo uma foca.
Entrei no enredo como personagem secundário, alguém para relatar as coisas e servir de "cola" em algumas situações. Mas descobri minha própria personalidade e desenvolvi minhas perplexidades, sendo que a maior de todas é: como eu me meti nisso? Pretendia apenas, na hipótese mais otimista, acompanhar Douradinha até a reserva ecológica, e depois voltaria a Paris para seguir com minha lenta tentativa de escalada até a visibilidade jornalística...
No entanto, desde que embarquei no Cisne, todas as hipóteses pararam de valer, porque uma realidade ainda mais louca passou a me acompanhar.
Tarilianos podem se tornar grandes amigos? Sim.
Podem salvar a vida de quem pareciam odiar? Sim. Desejo boa viagem a Giles, em seu retorno a Tarilian. Tomara que ele consiga alcançar seus objetivos.
Lendas existem? Sim!
Em Tarilian, existem Senhores com habilidades mentais fantásticas, existem Casas, Linhagens e zaminors. Merine existe, e manda seus Senhores como embaixadores para a Terra, para garantir que nossos mundos se entendam o melhor possível.
Na Terra, gelatinas vermelhas matam, lentes de cristal curam, barcos voam, serpentes marinhas existem... Deuses. Eu só vim acompanhar uma foca! A vida dá mesmo muitas voltas.

Bem, para quem quiser dar um oi, meu perfil no Face é Jean Rieve, obviamente. Me procurem lá!

terça-feira, 6 de junho de 2017

Maravilhas do Mar: Estrela de Plumas



E então vi um vídeo bem legal e pensei: nossa, faz tempo que não posto nada sobre as Maravilhas do Mar! Fui verificar no blog e caí de costas. É, faz tempo. Um ano, quatro meses e quatro dias.


Enfim, o vídeo que me chamou a atenção é este aqui abaixo, que aparecia com o título de "Palm Tree Fish". Fui procurar referências sobre o bicho e - surpresa! - praticamente só apareciam peixes sendo comidos sob palmeiras...



Cavouquei um pouco mais e descobri que o bichinho na verdade se chama "Feather Star" = estrela de plumas. Também não é peixe, mas um crinoide, primo distante e cheio de estilo das estrelas-do-mar. Vivem desde águas rasas até grandes profundidades.





São animais extraordinariamente antigos. Hoje, existem apenas cerca de 600 espécies de crinoides; no passado, foram muito mais abundantes. Algumas camadas de calcário datadas do Paleozoico são quase inteiramente constituídas por fragmentos desses animais.




sábado, 27 de maio de 2017

Livro IV - sexto dia de viagem (ainda)

Livro IV, sexto dia de viagem, capítulo 19


Ambientando vocês, o clã Melbourne encontrou Harmon e Steve. Não têm a menor suspeita que eles também vão para a Escola Avançada. E surgiram alguns... probleminhas! 


No acampamento onde eles estão,
a vista é mais ou menos isso!
(na imaginação da autora)

Ao entrar, Steve encontrou a turma da barraca laranja vindo em sentido contrário, rumo à saída.
– E Peggy? – exigiu Teo, ríspido. Steve não gostou, mas respondeu:
– Lá fora, com Harry. Quase desmaiou porque não jantou e a pressão baixou. Deviam ser menos muquiranas! Tim, você está me devendo um chocolate quente e um doce.
– Peggy se sentiu mal e você não chamou a gente?!
Eles saíram quase correndo. Steve segurou Pam, esperando o grupo se afastar.
***
Peggy se surpreendeu com a chegada deles. Cercaram-na de perguntas nervosas, e a garota não precisaria de sensibilidade alguma para perceber que eles tinham brigado. Feio.
– Calma, gente. Fiquei tonta, mas já passou, e é claro que não desmaiei. Estou bem agora. Steve foi muito atencioso.
– Steve! – Teo, irritado, verificou que Pam não estava com eles. – Ela ficou lá dentro com ele!
Teo correu de volta, Tim gritou para esperar e correu atrás, Tom pediu rapidamente a Peggy:
– Faça alguma coisa!
E correu atrás dos irmãos.
– Lis, o que houve?!
A baixinha, de braços cruzados e cara amarrada, indicou Harry com os olhos.
– Harry não vai ouvir nada! Não é, Harry?
Alguma coisa na voz. No modo de virar a cabeça. O jeito que os olhos de cor errada chisparam, que os cabelos balançaram. Cabelos que deveriam ser bem mais compridos, movendo-se como uma onda brilhante quando ela mexesse a cabeça.
Harmon teve absoluta certeza de que conhecia aquela garota.
– Com licença.
– Não, você fica. – Peggy segurou-o pelo casaco sem se dar ao trabalho de olhá-lo. – Fale, Lis!
Lis não discutiu a permanência da montanha humana e respondeu, objetiva:
– Teo e Pam. Harry virou as costas por meio segundo e Teo man-dou Pam ficar longe de Steve. Man-dou mesmo. Lembra a vez que ele montou em desaforo e man-dou Pam lavar o piso da cozinha porque estava imundo? Pois é. Isso!
Ric não sabia o que tinha acontecido no caso do piso da cozinha, mas enfatizou:
– Eu estava junto. Foi bem descabido. Pam ficou furiosa, e com razão.
– Não precisa explicar, Ric, Peggy entendeu, e sabe que furiosa é uma definição muito suave pra Pam!
– Onde está Ted? – Peggy passou para a parte prática. O único que conseguiria controlar Teo, ao menos um pouco, era seu gêmeo.
– Sei lá. Sumiu! Se soubesse onde ele está, já tinha chamado!
– Saiu bem agarrado com Anna quando vocês trocaram de par – informou Ric, e Lis fulminou-o com um olhar assassino. Quando ela procurara o irmão, Ric não tinha falado!
– Ache o dois e traga Ted já!
– Mas, Peggy, eles devem estar...
– Não me interessa nem se estão pelados. Repita o que Lis disse sobre a cozinha e Ted se veste em menos de dez segundos. Vá. Depressa!
Ric foi. Peggy se voltou para Harry.
– Steve obedece você?
– Sim.
– Chame-o!
O príncipe herdeiro de Sarad não se surpreendeu nem se aborreceu com a ordem. Apertou os lábios e assobiou de forma espantosa.
– Você vai me ensinar a assobiar assim! – exclamou Lis.
 *** 
Steve esperou a turma se afastar rumo a Harry e Peggy. Olhou Pam, que estava enfurecida, e explicou:
– Peggy se sentiu tonta, por isso a levei lá para fora. Ela está bem agora, estávamos entrando quando Harry chegou. O que houve com você?
A pergunta foi acompanhada por um belo sorriso. Steve tinha muita experiência em manejar garotas com crises de ciúme por sua causa.
– Você tem irmão, não tem?! Então, não me pergunte!
– Ah. Foram eles.
– É, foram eles, sim!
– Mas só dois são seus irmãos. Os outros são primos.
– Na prática, não faz a menor diferença! – Pam agarrou Steve e puxou-o para um canto de corredor. Teo passou correndo de volta, seguido por Tim e, uns passos atrás, Tom. – E, se eu falar com Teo agora, vou voar nos olhos dele!
Ele ia perguntar o motivo da briga quando duas garotas se aproximaram, cheias de sorrisos e olhares melosos. Mais uma vez, Steve não teve tempo de falar. Pam se adiantou, com chispas de fúria na voz:
– Caiam fora. Ele está comigo!
Elas recuaram dois passos, intimidadas.
– Mas você é muito grossa, garota!
– Grossa é o que eu vou me tornar em três segundos, se vocês não sumirem!
– Gato, quando se livrar dela dessa louca, venha falar com a gente.
– Louca! Que espetacular! – Pam avançou um passo, erguendo o punho fechado na frente da cara da que tinha falado. – É um, é dois, é...
Assustadas com a expressão homicida de Pam, elas sumiram. Ela virou para o surpreso Steve:
– Se você ousar sair de perto de mim agora, nunca mais olhe na minha cara, entendeu?!
Ele ainda tentava entender o que estava acontecendo quando ouviu o assobio de Harmon. Segurou a mão de Pam e arrastou-a para fora, parando com ela diante de Harmon, Peggy e Lis.
– Faça o que Peggy disser – determinou Harmon.
– O quê?!
– Mantenha Pam longe de Teo de qualquer jeito!
– Eu não preciso ficar longe daquele idiota! – esbravejou Pam, possessa.
– Vai ficar longe dele, sim! – Peggy apontou um dedo autoritário para ela. – Ou esta noite de diversão acaba na segurança! Que droga, Pam, são só machos marcando território!
– São machos o quê?! – espantou-se Steve.
– Cale a boca, lula! Não dá pra falar com Teo agora, Pam. Só fique longe dele!
– Então não pode ir pra mesa – meteu-se Lis. – Que horror, Pam, acho que você vai ter que dançar com ele de novo. Bem o que Teo proibiu!
Proibiu. Maravilhosa palavra para Pam erguer bem o queixo, expressão firme e olhos faiscantes, tornando-se mais bonita do que já era.
– Vamos dançar, Steve!
– Bem no meio da pista, pra os rapazes conseguirem segurar Teo longe! – avisou Peggy. – Lula, modere os tentáculos. Não é pra provocar!
– Faça o que Peggy diz – repetiu Harmon, encarando Steve. – Ou seja, modere-se.
– Eu não preciso dela repetindo o que você vive falando à minha volta!
– E não faça xixi em nenhum poste – arrematou Lis.
– Lulas não fazem xixi em postes. Usam os tentáculos pra estrangular quem entra no seu território, sabia?!
– Lulas ameaçadas expelem uma nuvem de tinta e fogem! – corrigiu Pam. – Se você fugir, acabo com Teo e depois com você! Vai ficar comigo, para aquele imbecil saber que não manda em mim! Vamos dançar, Steve. Agora!
– Vá – determinou Harmon.
– Ok, eu vou! Mas você vai me explicar o que está havendo!
Era com Pam, que retrucou:
– Que explicação você precisa sobre machos marcando território, criatura cheia de pose?!
– Pose?! Eu nunca fujo de encrencas, fique avisada!
– Ótimo. Não comece hoje e tudo fica bem! E não me irrite com seus tentáculos porque já estou irritada o suficiente!
Pam e Steve voltaram para dentro, discutindo. Peggy suspirou.
– Desculpe envolver vocês em brigas de família, Harry.
– Mesmo se Ric já achou Ted, é melhor vocês entrarem também pra ficar de olho no povo, nas poças de sangue, nos pescoços e fígados – disse Lis. – Aproveitem e dancem bem agarradinhos como estavam antes. Daí pode ser que Teo exploda e pare de torrar a paciência de todo mundo!
– Lis, sem provocações. Por favor!
– Eu só vou dar desconto porque não quero ir pra segurança.

domingo, 21 de maio de 2017

Livro IV - sexto dia de viagem

Livro IV, sexto dia de viagem, capítulo 16

Devagar e sempre, aos trancos, com paradas e retomadas, o livro IV vai avançando.

Elle Fanning é, sem dúvida, bem do jeitinho
que vejo Lis. Concordam?



– Essa rede de supermercados é ótima. – Entraram e Pam largou a mochila ao lado da porta principal. – Vamos reabastecer aqui.
Foi às compras com Teo, Tim, Jean e Lis, que fazia questão de conferir se Pam compraria as porcarias corretas para uma pirralha se empanturrar. Anna, completamente à vontade em sua versão mochileira, se interessou pelos cachecóis e gorros de uma loja de conveniência. Ted acompanhou-a. Tom foi ao banheiro; Peggy e Ric ficaram com as mochilas e violões.
– Você está quieta, séria e prestando uma atenção esquisita a tudo. – Ric aproveitou imediatamente o momento de privacidade. – Se me disser que está tudo bem, eu não vou acreditar, portanto podemos pular essa parte. O que há?
– Eu não sei.
– Oh. E especificando um pouco melhor? É seu senso de perigo?
– Sim e não.
– Novo oh. Peggy, esse seu jeito silencioso me preocupa mais do que uma crise de pânico. Me diga o que há e prometo que fica entre nós.
– Você entende bastante de sensitivos e sensibilidade. – Ela corria os olhos em torno com aparente despreocupação.
– É, fui um aluno aplicado lá no meu mundo. Mas, mais do que isso, você não é a Peggy que conheci no barco. Aquela ria e brincava. Você mal sorri. Não sei como seus irmãos não percebem.
– Estão mais preocupados por Tim não estar badernando do que com meu silêncio. São cinco dias sem aprontar com ninguém. Ele nunca sossegou tanto tempo.
– Bom, eu estou mais preocupado com você. – Ric apoiou as costas na parede. – O que há, garota? O que está pressentindo? O risco de reconhecerem seus irmãos é tão grande assim?
Com um suspiro, Peggy desistiu da vistoria aos arredores e se voltou para o rapaz.
– É maior do que o previsto, mas só ia causar correria, não perigo. Estou interferindo e dando avisos pra podermos terminar a viagem como planejamos, sem aterrissar na Escola antes da hora. Sei que estamos com a retaguarda bem protegida e meu senso de perigo concorda com isso. Minha inquietação não vem daí.
– Ok, você acaba de admitir que se sente inquieta e que não é com a viagem. Adiante.
– Não é com sermos reconhecidos, mas é com a viagem. – A garota suspirou de novo. Era complicado passar para palavras uma sensação que nem ela entendia bem. – Como se a viagem levasse ao desconhecido numa rota cheia de desafios.
Era uma colocação estranha o suficiente para Ric se dar uns segundos antes de dizer:
– Desafios no caminho e desconhecido na chegada? Não deveria ser desafios na chegada? É um dos pontos de chegada mais desafiadores do mundo, mas não é, de jeito nenhum, desconhecido. Sabemos muito bem o que nos espera lá.
– Pois é. – Peggy deu um sorrisinho nada feliz. – Minha cabeça diz: viagem com sobressaltos e chegada com desafios. A sensibilidade diz: viagem com desafios e chegada ao desconhecido. E adivinhe só quem costuma estar com a razão em coisas assim! Até agora, a viagem foi complicada, mas não foi um desafio. É como se o desafio ainda estivesse nos... me esperando.
– Esperando só você?
Ela abanou a cabeça com desânimo.
– Um desafio para todos, que vai dizer respeito especialmente a mim. Ou algo do tipo. Sabe a sensação de que vai ter prova-surpresa valendo seu pescoço?
– Não, mas posso imaginar. E não gostei da menção ao seu pescoço.
– Tom está voltando. Conversamos outra hora.
Ric imaginou o que poderia colocar em risco uma garota que, como aquela, tinha enfrentado serpentes marinhas com tanta coragem. Manteve os pensamentos longe da expressão e engrenou um assunto aleatório com Tom.
Peggy lembrou que o pescoço mais vulnerável de um sensitivo não era o físico, era o emocional. Estremeceu de repente, e estremecimentos vindos de sua sensibilidade eram incomuns. Droga. O que poderia ameaçar seu pescoço emocional, e ainda envolver a família toda? Com outro estremecimento, desejou que Peter estivesse ali, pronto para espatifar qualquer coisa que a perturbasse. E travou os pensamentos, agora realmente alarmada. Se estava pensando no seu dirlon Apocalipse como proteção, é porque a encrenca seria ENORME! Cruzou os braços, esfregou-os e olhou novamente em torno. Sempre sabia quando estava sendo vigiada ou ouvida, sua sensibilidade era exata quanto a isso. Então... por que estava com tanta impressão de ser observada, se a sensibilidade garantia que não estava acontecendo?
Com outro arrepio de desconforto, Peggy massageou de novo os braços.
– Está com frio? – perguntou Tom, atencioso.
– Não... Não estou, Tom, obrigada. Foi só não ter o que fazer com as mãos. Está tudo bem.
A expressão de Ric traduziu exatamente o que ele pensou: mentirosa!

sexta-feira, 31 de março de 2017

Livro IV - quinto dia de viagem

Livro IV - quinto dia de viagem, capítulo 14

Façam suas apostas! Os Melbourne serão descobertos ou não antes de chegarem à Escola Avançada de Champ-Bleux?


Durante os quarenta e cinco minutos seguintes, o trem percorreu o extenso túnel sob a montanha. Anna dormiu o tempo todo, os outros conversaram e verificaram as notícias e, quando o carrinho de lanches passou, Lis alegremente assumiu sua pirralhice e comprou doces, chocolates e pirulitos. Tim foi convidado a pagar. Quando o rapaz dos lanches se afastou, ele disse:

– É complicado viajar com criança!
– Coitadinho de você – riu-se a baixinha. – Eu vou aproveitar!
O trem finalmente emergiu do outro lado da cordilheira. Ali, o mundo era branco e cintilava ao Sol da manhã.
– Neve! – Lis bateu palmas, com um pirulito na boca. – Um montão de neve! Viva!
O trem fez duas paradas e muitos passageiros entraram. Alguns olharam os Melbourne com curiosidade, mas ninguém os abordou.
– Quinze minutos para a estação central de Altos Rios, vinte e cinco para a estação dos campings. – Tim indicou o painel informativo. – Bom, adiantamos o cronograma quando encurtamos os dias em Belte. Quanto tempo vamos ficar?
Todos olharam para Peggy, que respondeu:
– Sugiro dois dias, no máximo. Ainda estamos muito perto de Belte.
O grande entra e sai na estação principal da cidade acordou Anna. Uma quantidade incomum jovens embarcou rumo à estação seguinte.
– Não precisa pagar passagem entre a estação do centro e a dos campings – explicou um rapaz alto e simpático, cheio de sorrisos para Pam. – Eles dizem que é mais fácil a gente ir de graça no trem do que superlotar os ônibus, e todo mundo aproveita. Em qual camping vão ficar? O melhor é o Três Pinheiros, é onde minha turma está. Puxa. Tenho certeza que conheço vocês! Já vieram pra cá antes?
– Eu também conheço – assegurou a garota ao lado dele, que não sabia para qual daqueles gatos belíssimos devia sorrir primeiro.
– Ei, vocês estão definitivamente famosos, senhores – aparteou Peggy, divertida. – Nunca pensei que uns programas de calouros fizessem vocês ficarem tão conhecidos assim!
Eles entenderam o recado e puseram-se a falar de Os Demais, cheios de animação por terem sido reconhecidos. Nos curtos dez minutos entre as duas estações, juntou um tremendo bando de jovens em torno deles. Desceram com os novos amigos e Peggy decidiu pelo acampamento Três Pinheiros. Os Melbourne acharam que ela ia escolher qualquer outro, menos aquele, mas não discutiram. Ficaram conversando do lado de fora enquanto Peggy entrava com Ric na recepção, para acertar a parte burocrática.
[...]
Os amigos recém feitos foram com os Melbourne até a vaga da barraca, comentando que era uma pena ficarem tão longe da parte do acampamento onde se concentravam os mochileiros. Ajudaram a montar a Monstra, rindo.
– A gente acha esse escândalo cor de laranja até no escuro! Então, vão almoçar aqui ou na cidade?
– Na cidade – decidiu Peggy. – Vamos ficar só até amanhã. Não vale a pena abrir o equipamento de cozinha.
– Podiam ficar mais. – O rapaz do trem se chamava Ray e não saía de perto de Pam. – As eliminatórias de esqui e patinação começam nesta semana, tem muita coisa pra ver!
– O campo livre de Dariniz é mais interessante do que eliminatórias de esqui. – Teo intrometeu-se entre Pam e seu admirador. – Venha, Pam. Vamos entrar e arrumar as coisas para voltar para a cidade.
Ray achou graça daquele primo intrometido e disse a Pam que a veria de noite.
– Até depois, linda!
Os Melbourne conseguiram dispensar o povo e entrar na barraca, com Teo bronqueando em surdina com Pam:
– Vê se não dá conversa pra esses caras!
– Ele é muito mais simpático do que Dora – retrucou Pam, venenosa. – E tem mais barba do que você!
Era uma justa retribuição pela pele de Dora, que era mais lisinha do que a de Pam. Os dois se pegaram numa discussão irritada, e Jean sorria discretamente à distância. A aposta estava ganha. Aqueles irmãos não deixariam nenhum cara chegar perto de Pam!

quarta-feira, 29 de março de 2017

Livro IV - quarto dia de viagem.


Livro IV - quarto dia de viagem. Capítulo 12.

No qual apresento dois outros viajantes, e também falo de algumas "dificuldades" que os Melbourne enfrentarão durante a viagem. Tipo assim, as pessoas vão lembrar deles muito mais do que eles gostariam...



Steve e Harmon haviam partido de manhã bem cedo, uma hora antes de o Sol nascer. A doutora Breterech estava acordada e desejara a ambos uma boa viagem. E juízo, se possível.
Em quinze minutos, as possantes motos saíram do perímetro urbano. Em mais vinte, saíam da ilha, uma das mais nobres do Arquipélago Estrela, através da Estrada Interinsular. Saltando de ilha em ilha e constituída em sua maior parte por pontes sobre o tranquilo Mar do Sul, a Estrada Interinsular permitia o uso de alta velocidade em praticamente todos os seus dois mil quilômetros. Graças a isso e à habilitação para alta velocidade, Harmon e Steve percorreram-na em pouco mais de oito horas, chegando ao continente nas primeiras horas da tarde. Pararam na cidade de Águas Claras para um almoço tardio e, enquanto Steve acertava a despesa, Harmon foi até a grade de proteção que se erguia na beirada do penhasco. A grade tinha três metros de altura e, apenas cinquenta centímetros depois dela, as rochas desciam verticalmente por sessenta metros até o mar. Lá em baixo, o Mar do Sul era azul profundo, salpicado de ilhas. As ondas mansas mal faziam ruído contra as rochas.
Aquilo mais parecia uma piscina do que o mar, concluiu Harmon, acostumado ao bravio oceano que rodeava o Palácio de Sarad. O jovem príncipe mantinha a postura firme e as mãos relaxadas, com o capacete sob o braço esquerdo. Sua vontade era girar o capacete nervosamente nas mãos, apressar Steve o tanto que pudesse e sair disparando a toda velocidade rumo a Belte, depois rumo a Dariniz, sem qualquer intervalo para dormir. A ansiedade era enorme, e Harmon justificou-a para si mesmo assegurando que a causa era Cheli. Queria, mais do que tudo, encontrar a irmã e garantir sua segurança.
Mas a irritante e cada vez mais persistente voz em seu íntimo ria, garantindo que ele sabia muito bem que a causa não era Cheli.
– Eu vou para Champ-Bleux por conveniência – murmurou, entre os dentes cerrados. – Só por conveniência.
E, lá dentro, sentia algo rolando de rir de sua ingenuidade.
Harmon de Sarad teve a mais legítima vontade de destruir alguma coisa. A grade de proteção, por exemplo, que estava bem à sua frente, rindo da sua cara também.
Rindo da sua cara.
Tinha acabado de pensar na grade rindo da sua cara?
– O que houve, Harmon? – perguntou o Guardião, atento e técnico.
Consciente de que seu rosto devia estar expressando toda a sua vontade de matar a grade, Harmon enrijeceu a face.
– Preocupações. Vamos partir. As estradas do continente não permitem tanta velocidade.
Steve olhou-o bastante desconfiado, mas não fez comentários. Voltaram para as motos e Harmon procurou não pensar em si mesmo como alguém que pretendia assassinar grades com requintes de crueldade.
Tomaram a estrada para Belte e Harmon obrigou-se a respeitar a velocidade permitida, muito inferior ao seu ímpeto de acelerar até a velocidade máxima da moto.
Chegaram a Belte quando estava anoitecendo. A cidade estava em polvorosa com a inauguração das estátuas gigantes, que faziam o maior sucesso.
– Os doutores Melbourne e o barco deles? – admirou-se Steve. – Sem competição e sem concorrentes, porque todos os escultores fizeram juntos?
– Exatamente – confirmou o recepcionista da pousada onde pernoitariam.
Steve decidiu ver aquilo e Harmon acompanhou-o até a margem do rio.
Na noite fria e estrelada, o Cisne de gelo, iluminado por dezenas de refletores, faiscava como um sonho. Ao seu lado, o doutor Henry e a doutora Doris pareciam prontos a defendê-lo do que quer que fosse.
Apesar de não ser adepto de fotos, Steve tirou muitas. Harmon se manteve à distância da multidão que se aglomerava em torno das estátuas. A força que transmitiam não era apenas resultado da habilidade dos artistas. Havia força, real força, em Doris e Henry Melbourne. Eles eram raros, únicos, especiais.
O jovem sacudiu a cabeça e ordenou, decididamente, que aquela voz mal-assombrada se calasse. Ela se calou, mas continuou rindo. 
O príncipe de Sarad descobriu-se planejando assassinar estátuas de gelo e, como Steve não estava perto, engoliu em seco. Deuses. O que estava acontecendo?!


Curiosidade:

Ao procurar imagens para ilustrar o post, esta acima era a mais semelhante ao que imaginei para minha Estrada Interinsular. São da Overseas Highway, em Florida Keys, Estados Unidos. Ao lado, mais uma imagem dela, e este é o link do post de onde tirei as fotos.




Encontrei também mais duas estradas incríveis.

Uma é a Passage du Gois, na França, que alaga sempre que a maré sobe - link.

A outra é a Estrada Atlântica, na Noruega. Aqui, versão pacífica - link.

Aqui, versão de arrepiar - link.







domingo, 5 de março de 2017

Livro IV - primeiro dia de viagem.

Livro IV - primeiro dia de viagem. Capítulo 6.

Como vocês devem lembrar, esta era uma escala obrigatória!



Na esquina seguinte, avistaram o luminoso colorido da sorveteria anunciando os melhores sorvetes da Terra. Ao contrário de outras casas de lanches pelas quais tinham passado, a Mil Sabores não tinha a fachada transparente. Suas paredes pareciam feitas de doces, suas janelas com cortinas pareciam coisa de casa de bonecas, e dois soldados de brinquedo guarneciam a porta que, se não era feita de chocolate e jujubas, disfarçava muito bem. Ric cutucou as jujubas para conferir se eram só decoração.
– Sei lá! Terráqueos são malucos mesmo. E se fossem de verdade?
O balcão de sorvetes era, na falta de palavra melhor, épico. Ocupava uma parede enorme, e um painel acima informava quais eram os trezentos e cinquenta sabores oferecidos naquele dia. Foram conferir ainda com mochilas nas costas e sacolas em punho.
– Gente, eu nunca vi tanto sorvete na vida!
– Eu acabei de dizer: terráqueos são malucos! Caras, sorvete de manjericão com tomate! É sorvete de molho de pizza!
– Sorvete de morango com trufas! Chocolate com pimenta! Flocos com raspas de damasco e gengibre! É o paraíso! Moça, e o sorvete de doce de leite que dizem que é fantástico, onde está?
– Os sorvetes de doce de leite são aqueles.
Eram quinze variedades que fizeram os olhos de Lis brilharem.
– Se vocês comerem a metade do que estão ameaçando, ninguém vai jantar! – Anna sorriu, verificando quais sabores ia escolher.
– Seguinte, Anna... Se não entendeu ainda, isso aqui é a janta!


sábado, 4 de março de 2017

Ruiva? - grátis hoje e amanhã na Amazon

Notícia curtinha:

A Ruiva?, agora de cara nova, está grátis hoje e amanhã na Amazon. 

Semana que vem, ela irá para a gráfica, para receber uma nova e repaginada versão impressa. Vai ficar lindinha!


Aproveitem!