segunda-feira, 22 de agosto de 2016

AQUECE 2 - Guardião?

Olá, tripulação!


***  CONTINUA O AQUECE ***

Até o final da Bienal, postarei aqui um quote de Talismãs por dia, sempre às 19 horas. Generosos quotes!
(As novidades da Bienal serão via Facebook ou Instagram)


*** Lembrando que, na Bienal, estarei no estande M69 durante o evento todo, com minha turma de "monstrinhos"! ***

Hoje, um rápido "remember" de Guardião?. Com novidades inclusas, é claro! 




As possantes motocicletas avançavam lado a lado.
Seus pilotos tinham pouco menos de dezoito anos, a estrada perfeitamente pavimentada estava deserta, não havia postos de fiscalização próximos, mas, mesmo assim, desenvolviam velocidade muito abaixo da máxima permitida. Isso acontecia porque a velocidade era determinada pela motocicleta negra, pilotada por Harmon, o príncipe de Sarad. E, se havia uma velocidade média recomendada para aquela estrada (MUITO abaixo da velocidade máxima permitida, que droga!), era precisamente nessa velocidade que Harmon de Sarad dirigiria. Se havia uma regra, Harmon a cumpria. Simples assim.
Pilotando a moto verde-musgo, Steve tinha ímpetos de esgoelar aquele príncipe irritante e sua mania de obedecer a toda e qualquer norma existente. O problema é que Steve era o Guardião do príncipe, e sua função era protegê-lo, não esgoelá-lo. Mas que tinha vontade, ah, isso tinha. E quanta! Naquela velocidade, só chegariam ao campo livre de Lagoa Pintada ao meio-dia, apesar de terem saído de madrugada de casa. No dia anterior, sozinho, Steve havia feito o mesmo percurso em muito menos tempo!
O dia anterior.
Steve rosnou silenciosamente.
Seria ótimo não se lembrar dele a cada instante. Talvez, se não lembrasse, a vontade de esgoelar príncipes, atropelar cachorros e esmurrar paredes fosse embora. Mas não conseguia não lembrar. Cada minuto estava gravado em sua memória. E, entre todos os minutos, alguns haviam sido gravados a fogo, um fogo tão violento quanto destruidor. Seriam cicatrizes que levaria pelo resto da vida e, apesar de sua juventude, o rapaz já sabia que as cicatrizes da alma eram mais doloridas e permanentes do que qualquer cicatriz do corpo.
No dia anterior (maldito dia anterior? Providencial dia anterior? Ele ainda não decidira que adjetivo aplicar ao dia. Inesquecível dia anterior? Sim. Sem dúvida!), Steve saíra bem cedo rumo ao campo livre de Lagoa Pintada. Campos livres eram gigantescos complexos itinerantes de diversão, e o de Lagoa Pintada era excelente. É claro que o Guardião do príncipe de Sarad não ia ao campo livre para se divertir. Imagine-se uma anomalia destas: um dia inteiro só para diversão! Não, o Guardião ia a trabalho. Sua tarefa era analisar o circo, as tendas de adivinhos e todos os demais locais onde pudesse haver paranormais superficianos usando suas habilidades para executar "truques" que não eram truques, mas uso de habilidades mentais. Nos últimos anos, Steve havia localizado diversos paranormais, que haviam sido recrutados pela Linhagem de Moolna para avaliação e treinamento. Nenhum deles tinha sido visto outra vez. Depois de entrarem no Império Atlante, os superficianos não podiam retornar à superfície. Além disso, um dia no campo livre significava um dia longe da pilha de regras, leis, normas e regulamentos que respondia pelo nome de Harmon de Sarad, Primogênito do Palácio de Sarad e Herdeiro do Trono Negro e blablablá.
Com esse espírito, o Guardião fora para o campo livre: trabalho e liberdade!
Tudo estava correndo bem até Steve localizar uma Pérola misturada a bolas de cristal superficianas. Pérolas eram raríssimas! Criadas milênios atrás no Império Atlante, podiam ver passado, presente e futuro se tocadas pelas mãos corretas. O Guardião não podia permitir que um Artefato tão precioso continuasse nas mãos de superficianos. Precisava se apoderar da Pérola de qualquer jeito! Enquanto pensava no que fazer, Steve permitira que o vidente visse seu passado, seu presente... Seu futuro.
Jamais esperaria que a Pérola despertasse e mostrasse seu verdadeiro passado e sua verdadeira identidade, atropelando o Steve que ele fingia ser. Mas a pior parte, aquela que gravara cicatrizes em sua mente, em sua alma e em seu coração, estava no futuro previsto pela Pérola... Porque, naquele futuro, sua irmã morria. Por sua causa! A Pérola mostrara Kate, sua linda e voluntariosa irmã caçula, fechando os olhos pela última vez. E ele, Steve, era o único culpado!
Haviam sido momentos de pesadelo, mas logo a racionalidade sobrepujara o choque. Pérolas não mostravam fatos irrevogáveis, mas possibilidades de futuro. Agora que conhecia o perigo, Steve faria de tudo para evitá-lo. Tinha abdicado de sua vida para proteger seus irmãos. Não iria se tornar risco para nenhum deles! Kate ficaria bem. A qualquer preço!
[...]
No entanto, encontrar a Pérola interrompera sua investigação no campo livre; por isso, ele e Harmon estavam retornando. Ainda havia adivinhos e o circo a verificar.
Steve deu uma rápida espiada para o lado. Seu príncipe pilotava a moto focado na estrada em frente, como se aquele tédio absoluto exigisse toda a sua atenção. Se ao menos Harmon acelerasse... Mas não. Velocidade média. Velocidade de lesma. Fazia sobrar tempo para pensar na noite anterior em claro, durante a qual Steve analisara todas as formas possíveis de evitar a morte de Kate. Tecnicamente, era fácil. Bastava não gostar da irmã e se comportar como um patife com ela. Na prática, Steve duvidava se seria tão fácil assim. Estava afastado de Kate há quase nove anos, e a simples ideia de revê-la, mesmo que ela não soubesse que ele era seu irmão considerado morto, fazia seu coração acelerar e suas mãos suarem. Adorava a irmã. Faria tudo para protegê-la! Até mesmo fingir que a detestava... Deuses, por que tinha que ser assim?! Por que não podia correr para Kate e abraçá-la e rodá-la no ar e beijá-la e gritar toda a saudade que sentia?!
O jovem precisou de muito esforço para não acelerar feito louco.
Por quê?! Porque os renegados haviam assassinado seus pais, destruído sua família e o obrigado a viver como o subalterno de um príncipe irritante a quem teria todo o direito de dar ordens!
Maxilar contraído, dentes apertados, Steve se esforçou para tirar Kate da cabeça. E, no fim, nem foi tão difícil encontrar outra coisa em que pensar, porque Harmon estava bem ao seu lado.
Harmon sempre tinha sido seco, fechado, rigoroso e mal-humorado. Após mais de sete anos juntos, Steve jamais o vira sorrir, fazer uma pergunta que não fosse indispensável ou um comentário inesperado. Harmon era previsível e óbvio como um relógio. Mas, no dia anterior, depois de entregar a Pérola à doutora Mada...
"– Está tudo bem com você, Steve?"
Podia ser uma pergunta comum para qualquer pessoa, mas NUNCA para Harmon de Sarad! Steve, perplexo e de boca aberta, não tinha encontrado resposta.
"– Feche a boca, Steve."
A pergunta havia sido a primeira anomalia. Depois aconteceram outras. Todas pequenas, quase minúsculas. Mas, considerando o comportamento padronizado de Harmon, saltavam aos olhos do seu Guardião como fogos de artifício.
E, do nada, as palavras do vidente surgiram em sua mente como mais uma salva de fogos coloridos:
"– Fez uma escolha que mudará sua vida. As consequências ultrapassarão os prognósticos de sua fértil imaginação. Encontrará o que pensa que lhe é negado: amigos, que se tornarão novos e poderosos vínculos. Amigos pelos quais entregaria a vida sem hesitar, e que fariam o mesmo pelo senhor. Serão amigos raros, de origens diferentes, sangues diferentes, mas unidos em um único e improvável coração."
Steve quase sacudiu a cabeça, surpreso com o impacto das palavras. Por que tinha lembrado disso assim, de repente?!


NÃO PODIA SABER que, à meia Terra de distância, algumas daquelas palavras ecoaram na mente sensível de Peggy.
O toque de reunir intensificava sua tarefa: reunir.

Reunir gente que, por enquanto, está dispersa pela Terra inteira... Que simples, não?

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