domingo, 21 de setembro de 2014

Lapidando o texto (com direito a quotes de Talismãs)


Hoje, postei no Face que existe escrever o texto, revisar o texto, modificar o texto... Mas também existe outro trabalho, muito mais minucioso, que se chama "lapidar o texto". 

"Lapidar o texto" não é mudar. É polir, ajustar detalhes, arrumar uma única palavra da fala dos personagens... É ler uma cena ou diálogo e dizer a si mesma "ok, é isso, está certo, podia ficar assim... Mas pode melhorar! Está faltando algum tempero aqui. Uma detalhe. Um tanto a mais do jeito do personagem. Alguma coisa. Sei lá."

É ficar escrevendo e reescrevendo uma frase até que a tal "alguma coisa" surge no texto, arrancando um sorriso e a certeza de que, ahá, é aquilo mesmo! Não é escrever complicado. Ao contrário, é simplificar, tirar os excessos, deixar só o que realmente importa!

Talismãs, o terceiro livro de Uma geração. Todas as decisões. está neste processo. É lento em algumas partes, muito veloz em outras... Mas, no geral, muito gratificante!

E aí surgem frases como:

Henry suspirou profundamente.
– Não há boas guerras, Lis, mas algumas podem ser piores do que as outras. E, se eu for obrigado a ser mais claro do que isso, significa que vocês se envolveram em riscos ainda maiores do que os atuais.


Ou textos como (tá, sei que o Henry se mete em tudo, mas fazer o quê? É o jeito dele...):

Henry chamou os dois filhos para o mesmo lado, para poder olhar os dois juntos.
– Numa conversa com Tim, Leonard Janson foi mencionado. Eu reagi de uma maneira que fez Tim rir e dizer que o homem impressionava até mesmo a mim, seu valente papai. Com quantas pessoas vocês já me viram impressionado?
– Eu acho que nenhuma – disse afinal Teo, porque Henry ficou calado, esperando a resposta.
– Houve uma – lembrou Tom. – Justamente o doutor Carl, pai do doutor Leonard. Quando ele veio nos visitar, o senhor estava impressionado com ele de um jeito que, bom, me impressionou, apesar de eu ser um pirralho. Nunca esqueci. Mas era um tipo completamente de se impressionar do que esse que o senhor está falando agora.
– Certo, Tom, o doutor Carl Janson foi um dos homens que mais me impressionou na vida. E certo, Ted, ninguém mais me impressiona da forma que o doutor Leonard impressiona. O doutor Carl era um homem a ser admirado. Leonard Janson é um homem a ser temido.
– Temido – conferiu Teo. – O que ele pode fazer além de nos prensar, pai? Depois da prensa de Cornel, lá em Rivan, estamos bem imunes a isso!
– Cornel respeita regras, mesmo que sejam as dos rodapés dos regulamentos. Leonard Janson não respeita regra alguma. Os fins justificam quaisquer meios que se mostrem necessários, e o mundo que arrede do caminho.


Ou então, mostrando que voltaremos ao Cisne no terceiro livro:


Peggy tinha se instalado diante da janela de onde se viam os esguichos de baleias, estava cantando com as baleias, e estava pintando baleias.
Houve um momento em que Jean se deu por vencido, largou suas coisas e foi ver como ela conseguia transformar borrões de tinta em baleias fantásticas, que pareciam a ponto de espirrar água em alguém.
As baleias também fizeram sucesso entre os Melbourne, quando vieram engolir apressadamente o almoço. Havia dezenas de aquarelas grudadas nas paredes da sala de leme, formando um painel magnífico. Todas as baleias lá de fora pareciam estar ali. De longe, de perto, uma, diversas, grandes, pequenas... Havia também uma sequência de seis aquarelas, mostrando o nascimento de um filhote de baleia-de-ferro, uma coisa certamente jamais vista e muito menos filmada. No entanto, parecia curiosamente... correto. Até a cor do filhote, um branco de madrepérola.


Ou uma explicação como esta, que tanto vocês quanto os Melbourne queriam há um tempão...

Peggy esboçou o primeiro sorriso da manhã.
– Obrigada, gente. Obrigada mesmo. Bom, sobre as minhas mudanças de humor, que estão deixando vocês tão preocupados. Não precisam se preocupar, não estou pirando. É que... Resumindo, é que, por causa da sensibilidade, minha vida no Comando de Espaço não é fácil. Eu sou a melhor sensitiva deles. Sou o monstrinho que, entre outras coisas, pressentiu o acidente da base Ariel. Por minha precisão e alcance, eu era uma espécie de coringa do Comando de Espaço... Até que tia Grace e tio George morreram, e daí eu fiquei péssima, e não queria mais usar sensibilidade alguma pra coisa nenhuma, pronto, foi isso. Quando vim pra cá, há dois anos, não queria ser sensitiva, não queria ter sensibilidade, não queria nem pensar em sensibilidade. Queria me enfiar no buraco mais fundo do mundo e não sair nunca mais de dentro dele. Tia Doris e tio Henry não me conheciam, mas souberam do que estava acontecendo: a melhor sensitiva do Comando de Espaço estava pirando. Então, eles se ofereceram pra tomar conta de mim.
Aí todos os filhos viraram para os pais, que apenas continuaram ouvindo, em silêncio.
– De acordo com eles, no Cisne eu teria o sossego necessário pra me recuperar. Vocês seriam uma excelente companhia, eles garantiram. Dispensaram a pouca tripulação convencional que o Cisne ainda tinha pra nada me perturbar...
Os jovens mais uma vez se olharam. Estava certo! Tinham se tornado a tripulação oficial do Cisne poucos dias antes de Peggy chegar!
– ... Devem lembrar a primeira viagem do Cisne, depois que vim morar com vocês. Passamos quatro meses em alto mar, sem atracar em porto algum, sem contato com nenhum outro barco. Isso foi a fase mais crítica da minha recuperação perturbando a rota de vocês.

Bom, enfim... Escritora trabalhando muito por aqui! E logo, eu espero, vocês verão o resultado! :D


2 comentários:

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