segunda-feira, 10 de junho de 2013

Hoje, o assunto é Merine!

Amanhã eu falo da Feira do Livro de Ribeirão Preto e do pessoal sensacional que conheci lá. 

Hoje, o assunto é Merine!
 
De acordo com o combinado com o pessoal do grupo Bem-vindo a bordo do Cisne, teremos um quote de Linhagens falando da Casa de Merine, a Grande Casa de Tarilian. A primeira parte do quote é esta aqui abaixo; alguns parágrafos haviam sido liberados anteriormente. Aqui, o quote está completo. A segunda parte é totalmente inédita. Boa leitura. Mas já vou avisando que é um quote generoso, ou seja, beeeem extenso! 
Itas eram formações geológicas muito comuns em Tarilian, bastante típicas do planeta. Ao tentar traduzir “ita” do craseal, língua nativa de Tarilian, para o solar, idioma unificado da Terra, a mais óbvia tentativa havia sido cratera, pois esta era a forma das itas: uma região circular plana rodeada por um anel rochoso elevado. Mas os tarilianos tinham uma palavra específica para cratera e, no solar, não havia palavra para algo que, apesar de ter forma de cratera, não era uma. Por isso, mesmo em solar, itas continuaram sendo itas.
Essas formações existiam em Tarilian inteiro, em planícies e planaltos, nas cordilheiras e nas ilhas. Havia itas no topo de montanhas quase inacessíveis e outras que tomavam ilhas inteiras. Sua origem era desconhecida. Não seguiam nenhum padrão de distribuição geográfica e, embora mantivessem a estrutura básica – região circular cercada por anel rochoso – variavam de tamanho e aparência. Tinham desde poucas centenas de metros de diâmetro até quilômetros de extensão. Podiam ser cercadas por um anel rochoso alto e impressionante, ou por suaves colinas cobertas de relva. A região central plana era em geral coberta de vegetação, mas havia itas com lagos e outras cortadas por rios. Itas de regiões desérticas eram desertos; nas regiões geladas eram cobertas por neve. Muitas itas apresentavam uma característica peculiar: uma elevação exatamente no centro, tão inexplicada quanto as próprias itas.
As itas faziam parte da paisagem e da cultura de Tarilian, recebendo nomes de acordo com suas características ou localização. Os tarilianos, aliás, achavam muito estranho o costume terráqueo de identificar acidentes geográficos com nome de pessoas. Em Tarilian, Geografia não se misturava com História. Nomes de tarilianos ilustres ficavam dentro dos livros, em vez de batizar montanhas, rios ou itas.
A Grande Cordilheira do Norte era, como seu nome dizia, a maior cordilheira do norte de Tarilian. Também era o local com maior concentração de itas do planeta todo. Quando vista do espaço, toda a cordilheira parecia ter sido minuciosamente picotada com buracos redondos de tamanhos variados.
A Ita dos Pastores ficava ao sul da Grande Cordilheira do Norte, na cabeceira de um aprazível vale. Era uma ita de tamanho médio, com vinte quilômetros de diâmetro. Seu anel rochoso era mediano também e, ao norte, leste e oeste, as rochas da ita se fundiam aos contrafortes da Grande Cordilheira. O vale se estendia para o sul; nessa direção, o anel da ita era mais baixo, com contornos suaves, coberto por mata baixa. Essa ita tomava o nome de Pastores por haver, em sua planície, antigas aldeias de pastores. Seus animais, os dorlongs, viviam nas montanhas durante a maior parte do ano, e os pastores os acompanhavam. A chegada do inverno, no entanto, trazia pastores e dorlongs para a planície da ita, onde havia pasto verde o ano inteiro. A qualidade da lã da Ita dos Pastores era bem conhecida, e sua comercialização acontecia num entreposto a mais de trinta quilômetros dali. O terreno muito acidentado, ainda cortesia da Grande Cordilheira do Norte, desestimulava estradas mais próximas. Quando necessário, uma cidade de médio porte a cem quilômetros de distância fornecia suporte técnico, médico e científico para a região. Os veterinários vinham no inverno para vacinar os dorlongs e as equipes de supervisão vinham na mesma época para avaliar a instrução das crianças, realizar checagens médicas e censo. No resto do ano, os pastores e os dorlongs eram deixados em paz com seus costumes.
O pessoal da cidade considerava a visita anual à Ita dos Pastores quase um período de férias. As tempestades de inverno eram raras ao sul da Cordilheira, e nunca haviam enfrentado sequer um vento mais forte na Ita dos Pastores. A Cordilheira do Norte, ao pé da qual a ita se aninhava, parecia protegê-la com seus imensos paredões repletos de escarpas, passagens, túneis e trilhas milenares. Os dorlongs ficavam reunidos na tranquila pradaria da ita, pastando e fazendo soar seus sinos, pois todo dorlong tinha pelo menos um sininho de metal preso em suas longas orelhas pendentes. Os pastores cantavam junto com os sinos e a campina se enchia de música. As famílias locais eram gentis e hospitaleiras, fazendo questão de hospedar os visitantes em suas casas. Havia fartura de comida simples e saborosa, e igual fartura de casos e incidentes para contar. A Ita dos Pastores, no inverno, era um lugar de sossego e paz, e toda a equipe da cidade saía dali descansada e revigorada.
A Ita dos Pastores, como diversas outras, tinha uma elevação no centro. À distância, via-se que a elevação era composta por um pináculo rochoso bastante alto rodeado por colinas de diversas alturas, todas intensamente arborizadas. O local convidava à exploração e talvez um piquenique; por isso, todos os anos, alguém da equipe da cidade lançava a ideia de ir até lá. Os pastores garantiam que era um passeio muito agradável e ofereciam-se para acompanhar os visitantes... Mas, todos os anos, o pessoal da cidade partia sem colocar a ideia em prática.
Uma vez, há vinte anos, um jovem estudante de Medicina decidiu ir até a elevação no centro da ita. Foi sozinho, porque seus colegas encontraram motivos de última hora para não o acompanharem. A tarde estava linda e fria. O rapaz caminhava depressa pela campina cheia de dorlongs, animado com a perspectiva de escalar o pináculo. Na metade do caminho, algumas crianças da aldeia deixaram os dorlongs de lado para ir com ele, rindo, conversando e cantando. As crianças voltaram ao entardecer, felizes e sorridentes. O jovem nunca voltou, e sua falta nunca foi sentida, porque a equipe da cidade esqueceu totalmente de sua existência. A universidade recebeu seu pedido de transferência para o outro lado do planeta e sua família não fez perguntas, desaparecendo no dia seguinte.
Os pastores não esqueceram o rapaz, mas não o mencionaram mais. Aguardaram a partida da equipe da cidade e não se surpreenderam quando o jovem reapareceu na aldeia, maravilhado, incrédulo, rindo sozinho de tudo e de todos. Estudiosos procuravam a lendária Casa de Merine nos ermos mais remotos do planeta, mas era ALI que a Grande Casa de Tarilian se escondia, escandalosamente à vista de todos: na elevação central da tradicional e pacata Ita dos Pastores! E eles não eram pastores. Eram Lutadores! Sorrindo, o pessoal da aldeia explicou que era as duas coisas: pastores que se orgulhavam muito da qualidade da lã de seus dorlongs e Lutadores encarregados de proteger o perímetro mais externo da Casa de Merine. Raros, entre os que vinham da cidade, ouviam o chamado da Grande Casa. Como ele tinha ouvido, com certeza era um jovem bastante especial! Jorvis realmente era. Completou seus estudos, tornando-se um médico convencional habilitado pela Medicina das cidades e também um médico mental habilitado por Luta. E tornou-se parte da Linhagem de Merine ao casar com Rael, irmã mais nova de Diure e segunda Senhora de Merine.


Segunda parte do quote, total e completamente inédita: 
 
(Doris e Henry) Surgiram na campina verde e perfumada da Ita dos Pastores. A brisa leve trazia o som dos sinos dos dorlongs e, mais além, às costas dos kreganianos, as escarpas da Cordilheira do Norte formavam uma muralha impressionante. À frente deles, a elevação central da ita: a Grande Casa de Merine.
No Império Atlante, há mil anos os Palácios dos Reinos Independentes se ocultavam atrás de fabulosas camuflagens mentais, admiráveis obras-primas elaboradas com grande habilidade e poder. Pantir e Taixir, os Palácios emersos das regiões polares, tinham a aparência de imponentes e inacessíveis geleiras. Henry e Doris haviam visto Pantir uma vez, de grande distância, e ficado pasmos com a qualidade da camuflagem. Era perfeita! Mas, apesar da mestria de sua elaboração, não passava de uma ilusão. Se o poder do Palácio que a mantinha falhasse, ou se fosse forçada por um poder maior do que o seu, a camuflagem se desfaria.
Merine também era uma Casa camuflada, mas seu disfarce nada tinha a ver com as ilusões mentais usadas no Império. A Grande Casa de Tarilian usava rochas e vegetação verdadeiras para se disfarçar de paisagem; assim, qualquer atlas tariliano informava com total convicção que o centro da Ita dos Pastores era constituído por morros e picos de alturas variadas que, em conjunto, apresentavam forma aproximadamente cônica. O ponto que mais se destacava era o pináculo central, com altura três vezes maior do que as demais colinas. Dados complementares informavam sobre pouca densidade populacional, carência de recursos tecnológicos e criação de dorlongs.
– Ou seja, – murmurou Henry, baixinho, – um lugar atrasado que é um tédio total...
Doris sorriu de leve. Henry gostava de ver Merine de longe para apreciar a simplicidade do disfarce, que escondia a Casa sob uma fina casca de normalidade.
Um educado aviso antes do transporte, e Diure surgiu junto a eles. O pesado bloqueio que fechava Merine impedia o transporte direto para dentro da Casa, mas tanta distância não era necessária. Diure não perguntou o motivo. Também conhecia o prazer de Henry ao ver Merine de longe.
Os três caminharam por cerca de meia hora na planície da ita até chegar ao perímetro externo da Casa, demarcado por elevações semelhantes a coxilhas com poucos metros de altura. Ali, a relva começava a ceder espaço para pequenas árvores e arbustos. E também ali se começava a sentir o poderoso sinal mental de Merine.
A partir daquele ponto, a trilha serpenteava entre morros progressivamente mais altos e arborizados, enquanto neblina cada vez mais intensa passava a esconder o céu. A trilha desembocou numa grande área plana. Doris e Henry sabiam que aquele era um dos agrestes “jardins” externos de Merine, mas podiam ver muito pouco devido à neblina. Naquele ponto, o sinal mental da Casa era forte o suficiente para impedir o avanço de mentais não autorizados.
– Nunca tinha visto a proteção tão espessa, – comentou Henry, observando a neblina branca. – Não se enxerga o outro lado!
– O bloqueio que está isolando a Casa é muito pesado, – respondeu Diure, interrompendo o assunto anterior [...] – Merine se torna lenta para ações físicas externas. Até o bloqueio ser retirado, Robert e eu optamos por reforçar a neblina para manter o perímetro interno oculto. Evita correrias, se formos sobrevoados.
A neblina fria era tão real quando as rochas e a vegetação. Diure tinha vindo com um casaco leve; Henry abraçou Doris para se aquecerem e ia comentar alguma coisa a respeito de casacos para visitas quando se surpreendeu com a aproximação de diversos irrilas. Os enormes felinos tarilianos surgiam uns após outros do meio da névoa, silenciosos e atentos.
– Os irrilas costumam ficar do outro lado da Casa, não é? Algum motivo especial para estarem aqui?
– Motivos de Merine, não, – respondeu Diure, afagando o dorso de uma irrilina que se colocou ao seu lado, passando a acompanhá-la. – Motivos de irrilas, com certeza sim, porque mais de duzentos irrilas desceram da Grande Cordilheira para se juntar aos nossos. A Casa está literalmente cercada de irrilas.
– Devido ao bloqueio prolongado? – sugeriu Doris.
– Como irrilas têm grande sensibilidade a mudanças no ambiente mental, essa é a melhor possibilidade, – concordou Diure. – Podem ter interpretado o bloqueio de Merine como um escudo de proteção e vieram nos ajudar.
Acompanhados pelos irrilas, atravessaram o relvado até chegarem a um enorme paredão de rochas negras, que era impressionante mesmo em dias comuns; naquele momento, com o topo desaparecendo na neblina, ficava mais impressionante ainda. O aspecto só não era completamente intimidador porque a maior parte da rocha estava coberta por plantas e trepadeiras floridas, transformando tudo num belíssimo jardim vertical.
Dirigiram-se para a esquerda, entrando numa passagem que parecia cortada à faca na rocha. Bastante larga no início, afunilava progressivamente e terminava em uma fenda estreita onde passava apenas uma pessoa por vez. Diure foi primeiro, Doris em seguida, Henry foi o último: para a direita, mergulhando na penumbra entre os paredões de rocha; ângulo fechado para a esquerda, a claridade branca se anunciando enquanto o Mentor de Kreganian vencia os poucos metros da fenda; ângulo fechado para a direita mais uma vez...
...E o disfarce de Merine acabava.
As paredes não eram mais feitas de rocha negra, mas sim de cristal branco, leitoso e opalino, com mil cores imagináveis e mais mil inimagináveis iridescendo em suas profundezas translúcidas.
Henry saiu da passagem.
A muralha cristalina se estendia para os dois lados num elegante e largo arco, abraçando um dos mais esplêndidos jardins de Merine. E, além do jardim, a Grande Casa de Tarilian reluzia como uma joia feita de domos e cintilações.
Os olhos de Henry subiram pelos contornos suaves e arredondados de Merine. A trinta metros de altura, a superfície branca e brilhante começava a ser coberta por rochas, logo se tornando uma montanha repleta de vegetação recortada contra o céu. Era uma visão incrível! Desta vez, no entanto, não havia céu, mas sim uma nuvem espessa e clara, continuação da neblina lá de fora. Quem olhasse Merine de cima, veria apenas montanhas com a base encoberta pela névoa.
Pensando em decorar a Casa de Kreganian da mesma forma, Henry? – perguntou Doris, tirando o marido de seus devaneios.
– Não me canso de admirar essa montanha sobre a Casa!
– Já percebemos, – assegurou Diure. – Vamos entrar?
O jardim era realmente grande e, de comum acordo, optaram por se transportar para perto da Casa. Entraram no magnífico hall de cristal, ultrapassaram o bloqueio e transportaram-se novamente, agora para junto do bloqueio que separava o núcleo do restante de Merine. Diure teve o cuidado de direcioná-los para um ponto onde não encontrariam nenhum dos jovens do treinamento mental.

E é até aqui que o quote pode ir sem entrar em spoilers. Espero que tenham gostado!
 



2 comentários:

  1. Legal, muito legal!!! e o resto??? sai quando???

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  2. As descrições estão incríveis, me dão uma sensação de quase poder ver o que está sendo mencionado. Quase... Porque em Cisne e agora em Linhagens, nada é apenas o que parece ser.
    Nossa, fiquei curiosa pra saber o que Doris e Henry foram fazer em Merine e o porque do bloqueio prolongado. Enfim... Que venha Linhagens

    www.reticenciando.com

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