domingo, 21 de maio de 2017

Livro IV - sexto dia de viagem

Livro IV, sexto dia de viagem, capítulo 16

Devagar e sempre, aos trancos, com paradas e retomadas, o livro IV vai avançando.

Elle Fanning é, sem dúvida, bem do jeitinho
que vejo Lis. Concordam?



– Essa rede de supermercados é ótima. – Entraram e Pam largou a mochila ao lado da porta principal. – Vamos reabastecer aqui.
Foi às compras com Teo, Tim, Jean e Lis, que fazia questão de conferir se Pam compraria as porcarias corretas para uma pirralha se empanturrar. Anna, completamente à vontade em sua versão mochileira, se interessou pelos cachecóis e gorros de uma loja de conveniência. Ted acompanhou-a. Tom foi ao banheiro; Peggy e Ric ficaram com as mochilas e violões.
– Você está quieta, séria e prestando uma atenção esquisita a tudo. – Ric aproveitou imediatamente o momento de privacidade. – Se me disser que está tudo bem, eu não vou acreditar, portanto podemos pular essa parte. O que há?
– Eu não sei.
– Oh. E especificando um pouco melhor? É seu senso de perigo?
– Sim e não.
– Novo oh. Peggy, esse seu jeito silencioso me preocupa mais do que uma crise de pânico. Me diga o que há e prometo que fica entre nós.
– Você entende bastante de sensitivos e sensibilidade. – Ela corria os olhos em torno com aparente despreocupação.
– É, fui um aluno aplicado lá no meu mundo. Mas, mais do que isso, você não é a Peggy que conheci no barco. Aquela ria e brincava. Você mal sorri. Não sei como seus irmãos não percebem.
– Estão mais preocupados por Tim não estar badernando do que com meu silêncio. São cinco dias sem aprontar com ninguém. Ele nunca sossegou tanto tempo.
– Bom, eu estou mais preocupado com você. – Ric apoiou as costas na parede. – O que há, garota? O que está pressentindo? O risco de reconhecerem seus irmãos é tão grande assim?
Com um suspiro, Peggy desistiu da vistoria aos arredores e se voltou para o rapaz.
– É maior do que o previsto, mas só ia causar correria, não perigo. Estou interferindo e dando avisos pra podermos terminar a viagem como planejamos, sem aterrissar na Escola antes da hora. Sei que estamos com a retaguarda bem protegida e meu senso de perigo concorda com isso. Minha inquietação não vem daí.
– Ok, você acaba de admitir que se sente inquieta e que não é com a viagem. Adiante.
– Não é com sermos reconhecidos, mas é com a viagem. – A garota suspirou de novo. Era complicado passar para palavras uma sensação que nem ela entendia bem. – Como se a viagem levasse ao desconhecido numa rota cheia de desafios.
Era uma colocação estranha o suficiente para Ric se dar uns segundos antes de dizer:
– Desafios no caminho e desconhecido na chegada? Não deveria ser desafios na chegada? É um dos pontos de chegada mais desafiadores do mundo, mas não é, de jeito nenhum, desconhecido. Sabemos muito bem o que nos espera lá.
– Pois é. – Peggy deu um sorrisinho nada feliz. – Minha cabeça diz: viagem com sobressaltos e chegada com desafios. A sensibilidade diz: viagem com desafios e chegada ao desconhecido. E adivinhe só quem costuma estar com a razão em coisas assim! Até agora, a viagem foi complicada, mas não foi um desafio. É como se o desafio ainda estivesse nos... me esperando.
– Esperando só você?
Ela abanou a cabeça com desânimo.
– Um desafio para todos, que vai dizer respeito especialmente a mim. Ou algo do tipo. Sabe a sensação de que vai ter prova-surpresa valendo seu pescoço?
– Não, mas posso imaginar. E não gostei da menção ao seu pescoço.
– Tom está voltando. Conversamos outra hora.
Ric imaginou o que poderia colocar em risco uma garota que, como aquela, tinha enfrentado serpentes marinhas com tanta coragem. Manteve os pensamentos longe da expressão e engrenou um assunto aleatório com Tom.
Peggy lembrou que o pescoço mais vulnerável de um sensitivo não era o físico, era o emocional. Estremeceu de repente, e estremecimentos vindos de sua sensibilidade eram incomuns. Droga. O que poderia ameaçar seu pescoço emocional, e ainda envolver a família toda? Com outro estremecimento, desejou que Peter estivesse ali, pronto para espatifar qualquer coisa que a perturbasse. E travou os pensamentos, agora realmente alarmada. Se estava pensando no seu dirlon Apocalipse como proteção, é porque a encrenca seria ENORME! Cruzou os braços, esfregou-os e olhou novamente em torno. Sempre sabia quando estava sendo vigiada ou ouvida, sua sensibilidade era exata quanto a isso. Então... por que estava com tanta impressão de ser observada, se a sensibilidade garantia que não estava acontecendo?
Com outro arrepio de desconforto, Peggy massageou de novo os braços.
– Está com frio? – perguntou Tom, atencioso.
– Não... Não estou, Tom, obrigada. Foi só não ter o que fazer com as mãos. Está tudo bem.
A expressão de Ric traduziu exatamente o que ele pensou: mentirosa!

sexta-feira, 31 de março de 2017

Livro IV - quinto dia de viagem

Livro IV - quinto dia de viagem, capítulo 14

Façam suas apostas! Os Melbourne serão descobertos ou não antes de chegarem à Escola Avançada de Champ-Bleux?


Durante os quarenta e cinco minutos seguintes, o trem percorreu o extenso túnel sob a montanha. Anna dormiu o tempo todo, os outros conversaram e verificaram as notícias e, quando o carrinho de lanches passou, Lis alegremente assumiu sua pirralhice e comprou doces, chocolates e pirulitos. Tim foi convidado a pagar. Quando o rapaz dos lanches se afastou, ele disse:

– É complicado viajar com criança!
– Coitadinho de você – riu-se a baixinha. – Eu vou aproveitar!
O trem finalmente emergiu do outro lado da cordilheira. Ali, o mundo era branco e cintilava ao Sol da manhã.
– Neve! – Lis bateu palmas, com um pirulito na boca. – Um montão de neve! Viva!
O trem fez duas paradas e muitos passageiros entraram. Alguns olharam os Melbourne com curiosidade, mas ninguém os abordou.
– Quinze minutos para a estação central de Altos Rios, vinte e cinco para a estação dos campings. – Tim indicou o painel informativo. – Bom, adiantamos o cronograma quando encurtamos os dias em Belte. Quanto tempo vamos ficar?
Todos olharam para Peggy, que respondeu:
– Sugiro dois dias, no máximo. Ainda estamos muito perto de Belte.
O grande entra e sai na estação principal da cidade acordou Anna. Uma quantidade incomum jovens embarcou rumo à estação seguinte.
– Não precisa pagar passagem entre a estação do centro e a dos campings – explicou um rapaz alto e simpático, cheio de sorrisos para Pam. – Eles dizem que é mais fácil a gente ir de graça no trem do que superlotar os ônibus, e todo mundo aproveita. Em qual camping vão ficar? O melhor é o Três Pinheiros, é onde minha turma está. Puxa. Tenho certeza que conheço vocês! Já vieram pra cá antes?
– Eu também conheço – assegurou a garota ao lado dele, que não sabia para qual daqueles gatos belíssimos devia sorrir primeiro.
– Ei, vocês estão definitivamente famosos, senhores – aparteou Peggy, divertida. – Nunca pensei que uns programas de calouros fizessem vocês ficarem tão conhecidos assim!
Eles entenderam o recado e puseram-se a falar de Os Demais, cheios de animação por terem sido reconhecidos. Nos curtos dez minutos entre as duas estações, juntou um tremendo bando de jovens em torno deles. Desceram com os novos amigos e Peggy decidiu pelo acampamento Três Pinheiros. Os Melbourne acharam que ela ia escolher qualquer outro, menos aquele, mas não discutiram. Ficaram conversando do lado de fora enquanto Peggy entrava com Ric na recepção, para acertar a parte burocrática.
[...]
Os amigos recém feitos foram com os Melbourne até a vaga da barraca, comentando que era uma pena ficarem tão longe da parte do acampamento onde se concentravam os mochileiros. Ajudaram a montar a Monstra, rindo.
– A gente acha esse escândalo cor de laranja até no escuro! Então, vão almoçar aqui ou na cidade?
– Na cidade – decidiu Peggy. – Vamos ficar só até amanhã. Não vale a pena abrir o equipamento de cozinha.
– Podiam ficar mais. – O rapaz do trem se chamava Ray e não saía de perto de Pam. – As eliminatórias de esqui e patinação começam nesta semana, tem muita coisa pra ver!
– O campo livre de Dariniz é mais interessante do que eliminatórias de esqui. – Teo intrometeu-se entre Pam e seu admirador. – Venha, Pam. Vamos entrar e arrumar as coisas para voltar para a cidade.
Ray achou graça daquele primo intrometido e disse a Pam que a veria de noite.
– Até depois, linda!
Os Melbourne conseguiram dispensar o povo e entrar na barraca, com Teo bronqueando em surdina com Pam:
– Vê se não dá conversa pra esses caras!
– Ele é muito mais simpático do que Dora – retrucou Pam, venenosa. – E tem mais barba do que você!
Era uma justa retribuição pela pele de Dora, que era mais lisinha do que a de Pam. Os dois se pegaram numa discussão irritada, e Jean sorria discretamente à distância. A aposta estava ganha. Aqueles irmãos não deixariam nenhum cara chegar perto de Pam!